CORRE COTIA NA CASA DA TIA Atravesso a Tabapuã, ligo o cronômetro, começo a correr, ativo a cintura escapular, sinto os braços pendularem, pisada neutra, pronada, supinada. Sigo o leve declive até a Cidade Jardim, observo o terreno onde era o prédio da DPZ, demolido, agora a linha reta, Cidade Jardim, Europa, Augusta. Ontem eu subi a Ministro Rocha Azevedo e desci a Joaquim Eugênio de Lima, 8,4 km em hora e oito minutos.
SURFACE AIR MISSILE Povinho chiando nas redes sociais com a escolha dos atores que farão os bitous (v. Johnny e os Moondogs) em quatro filmes que serão lançados ao mesmo tempo em 2028, dirigidos por um tal de Sam Mendes. Por que a surpresa, ô povinho? O cinema acabou em 2014, os últimos filmes feitos foram O lobo de Wall Street e Garota sombria caminha pela noite. Nada mais depois disso. Esqueçam. Aliás, caguei pra cinema, streaming, Kitsch-Netflix , etc. (V. O hino da Igreja Pentecostal Deus Inhamô, olhei para o cinema e não pude encontrar poder pra me salvar, poder pra me salvar, os filmes de cinema lá no céu não vão entrar, por isso é bem melhor assim cantar, etc.)
EXIBIÇÃO ATROZ Vejo no Instagram a história de uma velha demente (Alzheimer, etc.) que mordeu um sabonete, o sabonete grudou na dentadura, ela tirou o conjunto dentadura/sabonete da boca e o guardou dentro de um livro. Admitamos: a coisa tem uma dimensão cômica, e uma dimensão cômica considerável. (Para não dizer surreal, De Chirico, etc.) Eu e meus irmãos ríamos até o maxilar travar quando um parente próximo teve uns episódios de descacholamento (v. Odorico Osório, depois Odorico Paraguaçu) e narrava umas histórias completamente malucas. A vida é um horror mesmo, ao menos deixem a gente rir com o horror (v. Joy Division, for entertainment they watch his body twist, etc.).
VIVA A BURGUESIA Vou com meu velho amigo Roberto Bicelli dar uma volta e tomar um café no Shopping Center Iguatemi. Subimos ao terceiro andar e digo que foi nessa escada rolante que a Helena Ignez deu um monte de chutes na canela do Stênio Garcia, A mulher de todos, 1969, direção de Rogério Sganzerla. Quando o Bicelli cansa um pouco de seus amigos esquerdistas pés de chinelo a gente vem ao Iguatemi para ver mulheres bonitas, bem vestidas, etc.
ROGÉRIO SKYLAB, A CRIARTURA DO ÓDIO DE SATANÁS Numa de suas notáveis intuições (percepção imediata de uma presença) Olavo de Carvalho sugere que, como não temos estatuto ontológico próprio e como não há nenhuma razão para termos sido colocados na existência (v. dasein, Heiddeger, estar aí, e vá lamber sabonete Lux quem complica a tradução), que então só podemos ser criaturas do amor de Deus, ou seja, que Deus nos criou por um puro e livre ato de amor. Em alguns casos, vá lá, admito até que sim. Mas e todos os estropiados? Os aleijados? Os horrendamente feios, sem charme, sem inteligência? Os calvos com cabeça de ovo? Os flácidos? Os obesos? Os débeis mentais? Os que largaram os estudos e que flexionam advérbios (ela é meia chata, etc.)? Criaturas do amor de deus? Sério, você consegue olhar para, hum, o Rogério Skylab e atribuir a ele a definição criatura do amor de deus?
CADÁVER ESQUISITO Eu e meus irmãos jogamos cadáver esquisito desde pequenos. Chamamos o jogo de sorteio. Tenho usado o ChatGPT para sortear as frases, combinações, etc. A propósito, vou fazer agora um sorteio com alguns nomes de amigos mais próximos que estão no Instagram e outros que fazem parte do meu mailing. Não se ofendam, tá? É tudo brincadeira. (Quem não aparecer no sorteio e quiser aparecer é só mandar uma mensagem.)
SORTEIO Roberto Bicelli cagou nas calças no disco voador de Clóvis Bornay. Magali Bragado bebeu água de privada no fuzilamento de Francisco Cuoco. Luciene Lamano jogou pó de pemba no cabelo de lobisomem de Sílvio Santos. Carlos Ormond jogou na areia movediça a dentadura de Elisângela. Andrea Ormond tocou sanfona na sessão espírita do Reverendo Moon. Toni bateu com a raquete de matar mosquito na assombração de Nelson Ned. Eurico Junqueira cagou o fígado no teleférico de Antônio Marcos. Stella Florence comeu macarrão com barata no exorcismo de Jece Valadão. Marcelo Santos ficou com medo do pneu furado de Moacyr Franco. Roberto Ormond passou com o trator na perna mecânica de Carlos Menem.
Etc., etc.
ENTREVISTAS DA PLAYBOY QUE NÃO EXISTIRAM, MAS QUE DEVERIAM TER EXISTIDO Wesley Duke Lee, em janeiro de 1982. Wesley era arrogante, eventualmente rude, mas engraçadíssimo. Figuraça. Imagina só, num meio escamoso como o meio das artes visuais o cara vir à boca de cena e dizer que era a favor da restauração da monarquia no Brasil e que o problema de comunista é que comunista é burro.
02/04/2025
eduardo haak
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
JOSÉ ARIGÓ PRESTOU CONCURSO PRA BARNABÉ, ETC. Ouço a Messa d’Oggi, Enrico Intra, 1970, da qual o Zé do Caixão sabiamente usou o melhor trecho, Credo, na abertura de Exorcismo negro, 1974, claro que sem pagar um tostão de direito autoral. (Dizem que o Paul McCartney botou uns capangas atrás do Carlo Mossy pra dar um pau nele, porque Mossy usou sem autorização uma música dos Beatles num filme pornô, etc.) Ouço também a Missa in memorian Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, 2006, que eu tinha achado, sei lá, horrenda numa primeira e rápida audição, mas, não, a coisa é boa, trata-se de um Arrigo bem mais stravinskiano do que, entre aspas, schoenberguiano, e dá pra ver direitinho a presença gingada e malandra do Itamar naqueles breguetes todos, gloria, credo, kyrie eleison, etc. A regência é do Tiago Pinheiro, que em idos tempos (final dos 1980, início dos 1990) comandava o notável (eventualmente esplêndido) Grupo Beijo/Coralusp. Sim, o cara uma vez pegou uma música bizarra de uma fracassadíssima banda de rock brasileiro dos anos 1980 chamada Lado B, Céus do Haiti, e a transformou, via arranjo, numa peça vocal estranhamente tocante. Ouçam: https://www.youtube.com/watch?v=Ue3H1KXkeoU
TE VEJO NA MTV Muito legal a reportagem do Gastão Moreira mostrando como está o prédio da MTV, Alfonso Bovero, 52 (eu morei no 1024, em 1975/76, atualmente tem um Postnet na casa). Apesar de tudo estar preservado, em uso (a Kalunga, que hoje é proprietária do prédio, aluga os estúdios), etc., continuo achando que a MTV envelheceu mal, como envelhece mal todo aquele (tudo aquilo) que se deixa levar pelo mito da juventude (v. nossa linda juventude, página de um livro bom, etc.). (Ao contrário da MTV, ou melhor, do espólio de uma emissora encerrada há doze anos chamada MTV, que envelheceu mal, vejo que a Daniela Barbieri, 56, hoje instrutora de ioga, está envelhecendo bem, bem, muito bem.) Vejam a reportagem do Gastão: https://youtu.be/KgzXxP6hXvg?feature=shared
REX GALLERY Conversando sobre Wesley Duke Lee com um amigo mostro um vídeo que achei, uma festa na Rex Gallery em 1966 (passei ontem em frente ao prédio, Faria Lima, 2523). Meu amigo diz que parece a festa em que o Ratso Rizzo (Dustin Hoffman) rouba mortadela e bate umas carteiras em Midnight cowboy e eu concordo com ele. Então penso na Brenda Vaccaro, que está estupenda no filme. Jon Voight, que está tentando ganhar a vida se prostituindo em Nova York, descola um programa pra fazer com ela. Brenda o leva para casa. O texano Joe Buck falha miseravelmente na hora em que deveria funcionar. Brenda sugere de eles jogarem palavras cruzadas. Joe Buck/Jon Voight soletra mony em vez de money. Brenda faz uma lista de palavras terminadas em ípsilon: faggy (viado)... fay (fada)... gay... A cara de discreto deboche que ela faz chamando quase que diretamente o Joe Buck de bicha é muito engraçada.
CAPAS DA PLAYBOY QUE NÃO EXISTIRAM, MAS QUE DEVERIAM TER EXISTIDO Daniela Barbieri, sim, sim, como não?, em junho de 1991. (A propósito, e aquela Tatiana Mancini, que foi da MTV e foi capa da VIP? Nunca mais ouvi falar nela.)
ENQUETE: BEATLES Faz tempo que não tenho mais muito saco pra qualquer coisa que envolva os Beatles, que acho dos quatro aquilo que o Paulo Francis achava, que numa sociedade aristocrática os beatles trabalhariam limpando bosta do cavalo no estábulo, etc., etc. De qualquer forma, no correr das décadas acabei acumulando um monte de opiniões sobre um monte de especificidades dos rapazes de Liverpool. Querem ver? Vamos lá. Meu álbum preferido: o The Beatles, ou Álbum Branco. (Talvez seja o único álbum dos Beatles que eventualmente eu ainda consiga ouvir quase inteiro.) O pior álbum: tirando o Please, please me do páreo, porque bobinho, ingênuo, não propriamente Beatles ainda, acho o Beatles for sale. Minha música preferida: I’m only sleeping. (A música, o arranjo vocal, tudo. Esplêndida.) O melhor álbum solo de um ex-beatle: Ram, do Paul McCartney, 1971. Pffff. Chega. Já deu esse assunto.
31/03/2025
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
ESSE FILME FOI PRODUZIDO ORIGINALMENTE EM PRETO E BRANCO Estamos em férias na praia, férias de julho do ano de 1984. A TV, um aparelho Colorado, conectado a um sintonizador UHF, mostra a vinheta da Sessão Coruja, depois a ficha da censura. O filme, O Jovem Frankenstein, começa. Ficamos aloprando o Ivan, um de nossos amigos, dizendo que ele parece o Frankenstein do filme. (Ivan tem onze anos e já está com um metro e oitenta e dois.) A Rua Vitório Morbim está tomada pela neblina. Estão presentes na sala de casa o Juninho (Odorico Paraguaçu bebeu água de privada no suplício de Salviano), Toni (Toni dançou rock’n’roll com a perna mecânica de Inri Cristo), Ivan (Doutor Phibes tocou sanfona no fuzilamento de Ivan), Elton (seu Heitor cagou nas calças no disco voador de Jacinto Figueira Júnior), eu e meus irmãos, João e André.
FECHA A JANELA, JOÃOZINHO Consigo ouvir e achar interessantes alguns trechos do Arrigo Barnabé por não mais que cinco minutos. São Paulo, 31 de dezembro de 1999, falta pouco, pouco, muito pouco pro ano 2000, de Clara Crocodilo, pra mim é o bastante. Tubarões voadores, a faixa, é legal. Ouço-a inteira uma vez a cada dois anos. Orgasmo total, enquanto não entra a banda e aquelas vocalistas com voz de gralha, vai até que bem. Arrigo parece ser um cara bacana, com um senso de humor meio sombrio com o qual tenho afinidade. Suas imitações do Gil Gomes são hilárias. É bastante autocrítico e sabe que grande parte do que compôs não passa de experimentações falhadas. Suas duas missas, para Itamar Assumpção e Arthur Bispo do Rosário, são horrendas.
TATIBITATE A Tati Bernardi até que é bonitinha. Tem cara daquelas nerds mocorongas que um dia você descobre ter umas taras meio incomuns, etc. Um diretor de cinema sacana, canalhão e talentoso podia tirá-la da bolha folha-esquerda-feminismo e colocá-la numa cena como aquela que o Mojica concebeu e dirigiu em Trilogia do terror, a mulherada tendo a roupa arrancada a chicotadas, enquanto um maneta toca bongô. (Sugestão: podiam colocar o Nasi, tomado por algum exu, suando à beça e castigando o atabaque.)
MONGA COEN Monga Coen aparece no meu Instagram mandando um venham-ver-é-sensacional para uma peça sobre Alister Crowley. Tsc, tsc, não adianta. Por mais que mude, se ligue, caia em si, esse pessoal que encheu a cuca de LSD nos anos 1970 em algum momento sempre vai acabar exibindo em público a cabeça batendo pino.
INTERVENÇÃO MILITAR Interessante que Rindu, Martina e o outro cujo nome esqueci, em Blecaute, Marcelo Rubens Paiva, passam a transitar militarizados por aquele mundo estranho em que havia sobrado só eles três. Sim, uma hora eles saqueiam do quartel no Ibirapuera veículos blindados, fardas, armamentos, etc. Noutra parte, um deles pega uma barca da Rota (v. veraneio vascaína vem dobrando a esquina), descobre uma quantidade razoável de maconha no porta-luvas e saí com o carro por aí, procurando algum ******* para esculachar, plantar droga pra forjar flagrante (v. Cê tá pensando que Erasmo Dias é Erasmo Carlos?), etc.
BLECAUTE SALVA NEWTON CRUZ DA CADEIRA ELÉTRICA Não sei se a peça de teatro chegou a ser feita, Blecaute, baseada no romance homônimo de Marcelo Rubens Paiva, mas o Kiko Zambianchi fez uma de suas músicas mais legais, mais bonitas, para a trilha dessa peça. Ouçam: https://youtu.be/c8l8cYQM1zk?feature=shared
(Não adianta, canções modais em modo dórico sempre quebram minhas pernas.)
CAPAS DE PLAYBOY QUE NÃO EXISTIRAM, PORQUE, WELL, SEM CHANCE Wilza Carla, 144 kg, não foi capa de Playboy, mas apareceu nas páginas de uma revista hardcore, Club, Fiesta ou International, em 1982. A seção da revista que mostrou Wilza nua se chamava Banhas eróticas. (Em idos tempos havia uma revista pornô que mostrava mulheres rechonchudas, acho que se chamava Chubby. Ou Cheri, sei lá.)
21/03/2025
TITÃS OU MARCELO RUBENS PAIVA?, por Eduardo Haak
Isso foi quando? Eu diria que anos 1990, no máximo início dos 2000. Uma crônica do Marcelo Rubens Paiva em que ele dizia se sentir um zé-ninguém perto dos Titãs. Em outras palavras, que o que ele mais queria na vida era ter tido a sorte de ter vindo a ser um titã. Que, vá lá, naquela altura dos fatos ele, Paiva, filho de Rubens e Eunice, se daria por contente de ir bater um pandeirinho com Paulo Miklos, Branco Mello e tutti quanti, ainda que com o rosto coberto por uma máscara (sim, pode ser a máscara carnavalesca da Fernandinha Bochechas Eróticas). Descontados os exageros e as hipérboles comuns em textos ficcionais (crônica não deixa de ser ficção), acredito que a inveja de Paiva era real. Os Titãs, para a minha geração, eram como aqueles primos que se dão absurdamente bem na vida enquanto você, bem, você vai levando, de mediocridade em mediocridade (diploma de administração da FMU, inglês intermediário, apartamento financiado em vinte e cinco anos, etc.). É isso aí, bróder. O titã come a Malu Mader (ou a Ângela Figueiredo) enquanto você, eu e o Marcelo Rubens Paiva comemos o pão que o belzebu amassou. (Alguém me contou que viu uma vez o Paiva de madrugada num Burger King xavecando umas barangas, Palácio do Jaburu total, etc.)
Mas também não nos deixemos levar por esse igualitarismo ilusório. Marcelo Rubens Paiva, a despeito da inveja assumida (procurem o conto do Rubem Fonseca que fala sobre o iate maior, etc.) e do xaveco nas barangas, é também, à sua maneira, um daqueles primos que se deram muito bem na vida. Feliz ano velho foi lançado há quarenta e três anos e vende até hoje. O que sobrou das coisas que você fazia quarenta e três anos atrás? Hem? Hem? Pra mim sobrou um adesivo da Fuji Film que grudei numa gaveta e que, espantosamente, continua lá. Só isso.
Isso posto (ou seja, já que estou tratando minhas próprias invejas e rancores e ressentimentos sem muita cerimônia), que tal eu especular se preferia ter sido um titã ou um Marcelo Rubens Paiva?
Lembrei-me outro dia, a bordo do Pinheiros 477A-10 descendo a Brigadeiro, que já vi os Titãs ao vivo. Foi em 1988, no Fico (Festival Interno do Colégio Objetivo), Ginásio do Ibirapuera. Conheci a banda mais ou menos na mesma época que todo mundo, 1984, Sonífera ilha, etc. Era colega de escola, quase amigo, de um primo do Sérgio Britto, o Eduardo Britto. Ele falava da banda do primo, Os Titãs, etc. Talvez eu tenha parado pra prestar atenção em Sonífera Ilha da Fantasia (Tattoo e senhor Roarke chapados de Rivotril, etc.) por causa desse colega. É possível. Evocando agora meus sentimentos pretéritos, nunca senti inveja dos Titãs. Sim, sempre achei legal, um monte de músicas (Dona Nenê, Toda cor, Babi índio, Pavimentação, Autonomia, Tô cansado, etc.), mas pra mim tranquilo participar dos Titãs como mero ouvinte. Uma época até me encheu o saco as poses deles, coreografias, cacoetes, etc. O Marcelo Rubens Paiva, meus sentimentos em relação a ele são/foram um pouco mais complexos. Por um lado, um cara que quero ser assim quando eu crescer. Bonito, charmoso, escritor outsider, entre aspas. (Sim, eu já quis ser escritor. Essa fantasia começou quando vi o Paiva numa entrevista pela primeira vez, acho que a Paula Dip entrevistando, 1988.) Por outro lado, o Paiva é aquele cara cuja simples/mera presença esfrega na sua cara que você nunca vai ter sequer uma fração do charme dele, que você nunca vai ser amado pelas mulheres um centésimo do que ele é, etc. (Será que é um lance comunista dele, dividir igualitariamente, justiça histórica, etc., aquilo de dar moral para as moradoras do Palácio dos Jaburus?)
E aí, o que eu preferia, estar com dezessete anos e ter uma vida inteira pela frente como um titã ou como Marcelo Rubens Paiva? Bem, se eu tivesse dezessete anos, num 1988 hipotético, acho que não teria dificuldade para escolher. Em última análise jogaria cara ou coroa. O que saísse estaria ótimo. Com cinquenta e quatro, e com o senso de que, a despeito da diferença dos caminhos trilhados, estamos todos indo para o mesmo buraco (todos sendo dissolvidos pela mesma entropia), pra mim é indiferente. De certa forma até prefiro ser eu mesmo, pois devo estar mais familiarizado com os declínios do que esses bobalhões todos. Sim, familiarizado com os declínios e os fracassos como um personagem de Walter Hugo Khouri (v. Paulo José em As amorosas falando para a Aneci Rocha que estamos todos destinados ao oblívio eterno, etc.) Sim, um personagem do Khouri. Que baita sorte a minha.
14/03/2025
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
MEIA-NOITE E VINTE E QUATRO, DIA 16 DE NOVEMBRO DE 1978 Na sala de estar de uma casa na Rua Vitorino Carmilo, Barra Funda. (Ou na Rua Carla, Itaim-Bibi.) Estou deitado no sofá, abraçado a uma almofada, ainda vestido (jeans US Top), meus tênis Adidas Viena no chão, ao alcance da perscrutadora ponta de meu pé direito. A mesa de centro da sala tem alguns números de Manchete, sob os quais deixei uma Status (Lívia Mund, etc.). Há um cinzeiro vazio, de plástico, perto do qual há um maço de Luiz XV com quatro cigarros e um isqueiro Cricket. Ao lado do cinzeiro há um carnê a ser pago no Banco Geral do Comércio e cinco notas de cem cruzeiros (Floriano Peixoto) presas com um clipe. A TV está na Globo, canal cinco, e mostra agora a vinheta da Coruja Colorida, a música de John Cacavas (pastiche de romantismo tardio), estrelas girando, meia lua, etc. Sei que há na garagem aqui de casa um Opala Especial 1973, amarelo. (Ou um Fiat 147, azul, parado na rua, porque essa casa, na Rua Carla, Itaim-Bibi, não tem garagem.) Sei que daqui a pouco vou ouvir o apito do vigia noturno, o Paraná (ou Múmia Paralítica). E mais tarde, se eu ainda estiver acordado, a Kombi da entrega de jornais.PERCURSOS Corro pela Nove de Julho do Itaim até o Joelma (seis quilômetros e uns quebrados) num pace de mais ou menos sete. Entro na Rua Santo Antônio (v. “Bichos saem dos lixos”, Titãs) e atravesso-a inteira. Sigo pela Almirante Marques de Leão e chego à Alameda Ribeirão Preto, depois Joaquim Eugênio de Lima, Paulista e Brigadeiro Luiz Antônio.CAPAS DE PLAYBOY QUE NÃO EXISTIRAM, MAS QUE DEVIAM TER EXISTIDO Kathy Valentine, em agosto de 1984. Kathy era/é a baixista das Go-Go’s (v. Vai-Vai, a escola de samba do Robby Krieger). As Go-Go’s eram todas umas graças, mas bonita mesmo ali só a Kathy. (Pesquiso e vejo que a Belinda Carlisle, cantora da banda, foi a capa da Playboy em julho de 2001.)O SOFÁ DO SÍLVIO SANTOS E aí, a comunidade já liberou o acesso ao túmulo do Senor Abravanel? O povão deve estar na maior fissura pra ir lá fazer pedidos, botar bilhetinhos e colar plaquinhas, “Agradeço ao Sílvio Santos pela graça alcançada”, etc. (Na Mad que parodiou Tubarão aparecia na parte de trás de um biquíni a frase sou fã do Sílvio Santos. Como eu ainda não lia direito, 1977, acabei lendo sofá do Sílvio Santos. Ri muito, aos seis anos, imaginando o Sílvio sentando no traseiro da moça, etc.)AGAMENON Descubro, com mais de um ano de atraso, que a Crusoé parou de publicar a coluna do Agamenon Mendes Pedreira. Que agora deve estar curtindo sua aposentadoria a bordo do Monza 88 enferrujado estacionado na Rua da Amargura. (Talvez o Agamenon esteja fazendo Airbnb com o banco de trás do Monza, onde talvez esteja agora hospedado o Voltaire de Souza.)
(Descubro que Voltaire de Souza está sendo publicado em Poder 360. Não sei quem está escrevendo, mas os textos andam bem ruins. Como já dizia o tio Rolf, tudo no comunismo vira uma bosta, etc.)TITÃS Preparo arroz, feijão e acém moído para a Olívia ouvindo o Tudo ao mesmo tempo agora, álbum dos Titãs de 1991. Gosto muito desse álbum. O empresário Manoel Poladian disse numa entrevista razoavelmente recente que os Titãs faliram quando arriscaram uma autogestão acompanhada de discos pouco comerciais como esse e Titanomaquia, de 1994. Diz também o Poladian que foi o Marcelo Fromer quem fez os Titãs voltarem a ser uma empresa lucrativa, quando convenceu os colegas de banda a deixarem de lado a radicalidade artística e virarem fazedores de musiquinhas de palestra motivacional, é preciso saber viver, devia ter amado mais, etc. (Diz ele que o Fromer costumava dizer, talvez meio de gozação, que ele não gostava de tocar, mas de ganhar dinheiro).
Etc., etc.
12/03/2025
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
ASSALTOS LTDA. Meu pai estaciona o Ford Maverick 1974 cor de abóbora com motor seis cilindros numa rua feia (Rua Vespasiano?) repleta de árvores doentes e diz pra gente que volta logo. Ele entra numa casa que tem uma placa com alguma coisa escrita. Como ainda não fui alfabetizado, não sei o que está escrito na placa. (v. “Sorriso do cachorro tá no rabo”, Walter Franco.) Meu pai começa a demorar. A demorar. A demorar muito. Começo a me sentir angustiado. Faço em voz alta a pergunta, será que ele foi assaltado? Meu primo John Entwistle/Ox, que aos quatro anos já tem a malícia e o sadismo altamente desenvolvidos, responde que sim, que meu pai deve ter sido assaltado, por isso está demorando. Eu entro em desespero e começo a chorar. Meu irmão André também começa a chorar. Ox, tentando conter a gargalhada, diz que na placa da casa onde meu pai entrou está escrito Assaltos. Sim, meu pai entrou na tal casa, dirigiu-se à recepção e disse, bom-dia, eu gostaria de ser assaltado. Etc., etc.
FCK CNV A praça ao lado da Assembleia Legislativa, ALESP, está completamente ocupada por banheiros químicos. Olhando assim parece um pouco aquelas concepções visuais surreais do Storm Thorgerson. Uma coisa meio psicodélica, meio trash, efeito de LSD-25 com Corote, Peter Fonda dirigido pelo Sady Baby, gravado em VHS. A Assembleia depois podia votar a mudança do nome da praça para Praça dos Foliões Cagões e Mijões. A Pedro Álvares Cabral podia mudar para Avenida Amônia (por causa da urina, etc.). Fuck carnaval.
REPÚBLICA ARGENTINA Luis Alberto Spinetta nada tem a ver com os estereótipos da cultura hispanoamericana, aquela coisa latinos de sangue caliente, cantoras no cio, Shakira fixada na fase oral, etc. (v. “Se bunda falasse, falaria espanhol.”) (E se minhoca falasse, falaria chinês.) Tampouco Spinetta tem a ver com o estereótipo do argentino, tango, alfajor, etc. (Sua única música em que aparece um bandoneon é Las golondrinas de la Plaza de Mayo.) Rock’n’roll? Sim, mas o vago e frágil conceito de rock argentino é incapaz de esclarecê-lo (Fito Paez e Charly Garcia não lhe chegam aos pés). Ela, a música de Spinetta, é prima em segundo grau (às vezes em primeiro) do Clube da Esquina. E é esplêndida, a música de Spinetta.
A GRANDE ARTE Encontro no meio de A grande arte, Rubem Fonseca, um papel já meio amarelado com uma análise que fiz da harmonia de Diamond dust (Bernie Holland, Jeff Beck, Blow by blow, 1975). A música muda de tom (de modo, na verdade, pois se trata de uma música polimodal) dezesseis vezes. A quem interessar possa: D dórico, D menor melódico, F dórico, F menor melódico, A# eólio, F# lídio, D# dórico, G# dórico, E lídio, B lídio, A# eólio, F# lídio, F eólio, C eólio, A# mixolídio, A eólio.
ICI Descubro com alguns anos de atraso que a Imperial Chemical Industries não existe mais. Aquela foto espantosa usada na capa do disco do Alan Parsons, da Ammonia Avenue, uma via de quilômetros e quilômetros só com tubulações gigantes para o transporte de amônia, numa fábrica da ICI, explica um certo gosto pelo niilismo e pelo humor demolidor sem limites das pessoas que nasceram por volta de 1971, “logo vamos todos para o brejo, mas pensando bem a coisa até que é engraçada”. (v. “Union Carbide dá amostra grátis pra dois mil na Índia.”)
ELEIÇÕES 82 Um repórter diz, minha pergunta é para o candidato Franco Monturo. (Monturo, monte de lixo.) O candidato corrige, meu nome não é Monturo, é Montoro. Etc., etc.
CAPAS DE PLAYBOY QUE NÃO EXISTIRAM PORQUE ESTAMOS EM 2025 E A REVISTA DO HUGH HEFNER FOI PARA O BREJO Uma atriz espanhola chamada Marta Belmonte. Tremendamente bonita. Não sei se é boa atriz. Parece que fez um papel de sucesso, alguma coisa de lesbianismo, lesbianismo kitsch netflix.
28/02/2025
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
PASSEIO NOTURNO Saio do Madame (ex-Satã), são quase três da manhã. Maga Patalógica olha para a tela do telefone e acompanha o percurso do Uber, Magy Imoberdorf pergunta se não me importo se ela não me der carona hoje. Digo que não, não me importo, mas que preciso encontrar um ponto de táxi, ou ir para um lugar onde haja probabilidade de eu pegar um táxi que esteja circulando (v. “Livre como um táxi”, Millôr Fernandes). Magy atravessa a rua, agora há na Rua Fortaleza dois food trucks. O Uber de Maga Patalógica chega e nos despedimos, Magy passa de carro e não olha na minha direção. Afasto-me do Madame e sigo a Rua Fortaleza até a Rui Barbosa e espero um pouco em frente a um posto de gasolina abandonado que agora serve de lava rápido e estacionamento e nenhum táxi surge. Vou andando até a Conselheiro Carrão e sigo por ela e chego à Rua dos Franceses e vou subindo, e passo em frente a um hospital, e ouço uma espécie de rumor formado de resíduos sonoros distantes, e passo em frente aos prédios do totem, e subo a Joaquim Eugênio de Lima decidindo se vou entrar na Cincinato Braga ou atravessar a Paulista e seguir pela Alameda Santos. Escolho a Cincinato pensando que talvez o sujeito que vi em frente ao pronto-socorro ali na Rua dos Franceses fosse uma assombração, alguém que morreu em 1999 e que às vezes vem passear na Bela Vista, especialmente de madrugada. Passo em frente a padaria com clima de Nelson Rodrigues aonde fui algumas vezes com o Carlos e a Andrea e cogito fazer o percurso todo até minha casa a pé. (Cogito fazer um treino longo de corrida algum dia desses, de madrugada, talvez indo até o Centro.) (V. Depois que todo mundo dormiu, Eduardo Piochi, 1982.) Finalmente vejo um táxi em frente ao Hospital Santa Catarina e vou ate lá e pergunto ao taxista se ele tem troco para uma nota de cinquenta e ele diz que não, então ofereço vinte reais pelo percurso até minha casa e ele aceita e eu subo no táxi.
MIRCEA ELIADE fala bastante sobre mitos não propriamente de origem, mas de inícios. Grandes inícios. Nossos grandes inícios. Nossos primeiros sonhos impressionantes. Nossas primeiras viagens. Primeiras percepções e intelecções. O cheiro de cigarro e bala Frumelo (framboesa, Lacta) do apartamento da minha avó Ida. (Minha avó fumava Minister e morava na Rua Iguatemi, 335.)
(Acho que o fantasma na Bela Vista era o Goulart de Andrade.)
LUÍS CARLOS ALBORGHETTI Vejo um vídeo chamado Alborghetti melhor sequência. O vídeo é de 1992. Alborghetti acende uma vela e fica rogando para que um bandido que está hospitalizado (tiro, etc.) morra. “Vai morrer ou não vai? Vaaai...” A imagem da vela se mescla à imagem de um demônio, com chifres e cara preta. Noutra parte, Alborghetti diz que PC Farias e os “meninos do Comandaço Vermelho” deviam ser fuzilados em praça pública. Depois festa, foguete, chope pra todo mundo, uma carne legal, costelaço, fica todo mundo lá, tomando chope e vendo o sangue (do PC, etc.) escorrer.
TELESP INFORMA Chama-se Rosa Baroli, a dona da voz do serviço de hora certa da Telesp, 1977-1998.
CAPAS DE PLAYBOY QUE NÃO EXISTIRAM, MAS QUE DEVERIAM TER EXISTIDO Hoje menciono duas: Serena Ucelli, em março de 1985 (“Intestino volta a funcionar: Tancredo já está cagando e andando”) e Emília Caldas, junho de 1987. Serena era proprietária e garota-propaganda do jornal de classificados Primeiramão. Aparecia na TV, toda linda, falando com um delicioso sotaque estrangeiro, que não parecia propriamente italiano. Etc., etc. Emília Caldas era uma das beldades do Afrodite se Quiser. Antes, havia feito uma interessante parceria com seu então marido, Robertinho de Recife (o álbum, Robertinho de Recife e Emilinha, 1982, que botou nas paradas Dominó, dominó, é uma obra notável e esquecida da música pop-popular brasileira). Emília poderia ser a irmã do meio de Vera Mossa e Nicole Puzzi. Como dizia Nelson Rodrigues, a mulher bonita, por si só, já é uma forma de epifania.
Etc., etc.
(Votei no Ricardo Nunes porque achei que ele ia acabar com essa coisa de blocos de rua em São Paulo, etc.)
(V. NEIDE TAUBATÉ, “NÃO É MESMO?) “O povo cerca a gente pensando que somos bi****, nós estrilamos com voz fina, quando eles quiserem tascar, a gente, e mais vocês, se for preciso, põe a maldade pra jambrar e fazemos um carnaval de porrada pra todo lado. Vamos acabar com tudo que é bloco de cr*****, no pau, mesmo, pra valer. Você topa?”, trecho de Fevereiro ou março, Rubem Fonseca.
19/02/2025
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
9 DE FEVEREIRO DE 1985 É meu aniversário de catorze anos. Estou usando temporariamente o quarto que é da minha avó Maria, que está em Santos. Trouxe para cá minha guitarra, discos e aparelho de som. Vejo em sequência, na TV Cultura, Fábrica do Som e Som Pop (v. Tadeu Jungle e Paulinho Heavy). Recebo três amigos – o Tom, que me dá de presente o Born again, do Black Sabbath, o Alexandre e o Boi, que é meu primo. Alexandre e Boi dizem para o Tom que ele se parece com o baterista dos Titãs, o André Jung. Tia Gylka e a mãe do Alexandre, a Cláudia, ficam na sala conversando com minha mãe. Tia Gylka fuma Galaxy Slims e Cláudia fuma Hollywood. Sábado, 9 de fevereiro de 1985. É a primeira vez que não faço festa de aniversário desde que comecei a fazer festas de aniversário.
9 DE FEVEREIRO DE 1984 Estou no salão de festas do prédio. A festa é para comemorar meus treze anos. Uns amigos acabam de chegar – Romano, Terezinha, Cristiane e Evandro. (Romano fuma Pall Mall, Astolfo fuma Arizona, vó Ida fuma Charm, etc.) Evandro me estende uma embalagem da Sandiz. É um disco, o Undercover, dos Rolling Stones. A Tereza, mãe do Elton, vê a imagem da contracapa, uma mulher nua, fotografada de costas, com o dorso inclinado, e faz um comentário engraçado, com alto teor sexual.
9 DE FEVEREIRO DE 1983 É a primeira vez que comemoro meu aniversário no apartamento, não no salão do prédio. Eu e uns amigos estamos no quarto fazendo gravações supostamente engraçadas. O Eduardo Gordinho (v. Yoplait) canta o que ele diz ser Cruel, cruel, esquizofrenético blues, da Blitz. Não sei como ele teve acesso a esse material, também não posso ter certeza se isso que ele está cantando é mesmo a música censurada da Blitz. Na sala, as pessoas estão falando sobre a Karen Carpenter, que morreu hoje, de anorexia.
9 DE FEVEREIRO DE 1986 Num lugar chamado Mil Milhas, em Interlagos, à beira da represa. A toalha da mesa está suja, o que gera constrangimento e mal-estar. (V. A toalha da mesa estar suja como metáfora, etc.)
9 DE FEVEREIRO DE 1987 Estou fazendo uns sons no teclado Korg Poly 800 do Maurício Tartá. Frederico me deu de presente o Magical mystery tour, dos Beatles. Coloco I am the walrus e digo, é essa faixa, ouça. Frederico ouve e diz que não achou nada demais. (À tarde fui trocar um vale-disco numa Hi-Fi do Iguatemi. Peguei o Drama, do Yes.)
9 DE FEVEREIRO DE 1992 Espero mais de duas horas um amigo que disse que viria em casa. Como ele não aparece, vou ao aniversário do meu primo Christian (fazemos aniversário no mesmo dia, etc.). Estou usando uma camiseta polo verde garrafa e uma calça de sarja cinza, meio que imitando o que suponho ser o jeito de se vestir do Stewart Copeland, o baterista do The Police.
9 DE FEVEREIRO DE 1996 Num bar na Rua Tabapuã chamado Anjo Lelahel, evento feito de improviso, convites enviados de última hora. Apesar disso, um monte de gente aparece.
9 DE FEVEREIRO DE 2018 No Madame Satã, na varandinha onde projetam filmes: eu, Roberto Bicelli, Miguel de Almeida, Luciene Lamano, Magali Bragado e um cara que parece o tio Chico da Família Adams, que não sei quem é.
9 DE FEVEREIRO DE 1982 O síndico do prédio, seu Martinelli, entra no salão dando ordens, gritando, dizendo que está na hora de encerrar a festa (v. Por que coronéis reformados do exército tendem a virar síndicos em prédios na Tijuca?). A família toda (Mirandas, Cerveiras, Pasquinellis, Haaks, etc.) vai pra cima do sujeito. Até eu, que estou completando onze anos, participo do quase linchamento. Uma grande, uma gigante catarse de palavrões, termos chulos, copinhos de plástico arremessados. Meu primo Duto, com a palma da mão voltada contra o rosto acuado do síndico, fica repetindo o xingamento seu bosta. O ano de 1982 é um ano muscle car, Opala 4x100, míssil antinavio Exocet, chiclete Bazooka argentino, chão quadriculado de Congonhas, Mário Fofoca.
Etc., etc.
09/02/2025
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
AINDA 1974-75 Faz de conta que interessa a alguém eu dizer que faz nove anos que tenho uma rotina atlética. (“Sim, interessa, manda bala.”) Oh yeah? Oh yeah. (“Oh yeah” era uma expressão que eu usava o tempo todo em meus textos jornalísticos lá por 2008, pretendendo que ela tivesse o efeito do “de leve” do Ibrahim Sued.) Após um longo e nem tão tenebroso assim período de sedentarismo, comecei a pedalar em 2016, tentando vencer os resíduos de uma síndrome do pânico (v. Pânico em SP, Os Inocentes) que me derrubou quando estava prestes a fazer quarenta e um anos (sou de 1971, façam a conta). Cheguei a pedalar 6.000 km em um ano. Afastei-me da bicicleta após sofrer um acidente potencialmente grave, em janeiro de 2022. Percebi o quanto é realmente perigoso trafegar de bicicleta por São Paulo. A corrida acabou entrando no lugar da bike (“I like Ike and bike”) e comecei também a fazer musculação, treino ABC, seis vezes por semana, ingestão de creatina, whey protein, 1,6 grama de proteína por quilo de peso corporal, etc., etc. Como corredor, tenho como padrão correr 10 km, num pace ao redor de 6,5. Quando a tendinopatia me dá um descanso, corro 15, 20 km. Em algum momento notei que os resíduos da síndrome do pânico tinham ido embora. (Os diagnósticos psiquiátricos são tão vagos quanto a descrição do mecanismo de ação dos medicamentos prescritos por psiquiatras. Não sei se o que tive foi realmente síndrome do pânico. Meus sintomas estavam mais para estresse pós-traumático. Tinha o tempo todo a sensação de que estava prestes a desmaiar ou a ter uma convulsão. Durante um período, em 2014, a sensação era como se eu estivesse com uma ressaca alcoólica pesada, o tempo todo, a coisa não passava. Tinha hiperestesia, vertigem, sensação de despersonalização. Posso dizer que vivi à base de oxalato de escitalopram, lamotrigina e benzodiazepínicos de 2012 a 2018.) (Não vou insistir nesse assuntinho pé no saco de doença. Se o assuntinho te interessa, vá ler os livros daquele sujeito, esqueci o nome dele, um deprimido profissional (v. Didi, “Hummm, ele solicita”) com cara de índio de porta de charutaria que escreveu um livro chamado Escuridão ao meio-dia ou coisa que o valha.)
Não gosto de correr em parques, sinto um tédio federal com traçados fixos. Sou um corredor de rua. Costumo fazer o percurso Avenida Nove de Julho, do Itaim até o Centro, aí volto pela Brigadeiro Luís Antônio. Às vezes vou até a Avenida São João, via Anhangabaú, saúdo o prédio do Banespa, viro na Líbero Badaró e volto. Às vezes entro na Rua Santo Antônio, contornando o Joelma (v. Joelma, 23º. andar, direção de Clery Cunha, 1977). Numa dessas vezes em que contornei o Joelma, lembrei-me de uma excursão que fiz como aluno do Externato Meu Xodó, Rua Cajaíba, Pompeia, 1974-75. Fomos conhecer um quartel do corpo de bombeiros. (v. Salve o Corinthians, gravação do Coro do Corpo de Bombeiros do Estado de S. Paulo). Onde, o quartel? Acho que foi no da Consolação, assim minha memória-imaginação me diz. Ali estou eu, aos quatro anos, com as pernas cobertas por uma espuma que um dos bombeiros lançou sobre nós, a gurizada. (Às vezes eu corro até a Pompeia, e entro na Rua Capital Federal, depois na Rua Paris, depois subo a escadaria mal-assombrada que vai dar na Rua Cajaíba, e observo os prédios, e chego a conclusões precisas sobre onde ficava o Externato Meu Xodó, cuja casa original, onde estudei, foi demolida no final nos anos 1970. Às vezes, voltando, o tendão de Aquiles direito já pegando fogo, paro no Cemitério do Redemptor, na Doutor Arnaldo, para encher minha garrafa no bebedouro, e descanso um pouco, e olho para o cemitério, e deduzo, por ele não ser muito grande, que não teria dificuldades para acabar encontrando o túmulo onde foram enterrados os pais e dois sobrinhos de uma amiga da minha mãe, que morreram num acidente na Piaçaguera, a estrada que vai até o Guarujá, em 1979.)
Passado o barato da espuma, somos colocados na caçamba de um carro de bombeiros e, oh yeah!, vamos dar umas voltas por São Paulo. A tragédia do Joelma é bem recente e todos os transeuntes olham em pânico para o carro de bombeiros soando as trombetas do apocalipse (sirene), imaginando que talvez outro prédio esteja pegando fogo (v. Como Cobrar as 13 Almas do Joelma por Alguma Graça Não Alcançada, de Jade Pynchon). Eu sinto como se todos transeuntes estivessem olhando para mim e isso me deixa muito excitado. Eu, Carlos Zeduardo, sou um eufórico carro de bombeiros, vermelho, com quatro metros de comprimento, escada Magirus-Deutz, sirene ligada, a caminho de algum feito heroico, enquanto uma multidão de Flávios Migliaccios completamente fodidos, espremidos nas calçadas, se limita a me olhar com admiração impotente. (Extra, extra! Donald Trump regrava sucesso da banda punk brasileira Olho Seco, “Você devia de proibir a migração do povão, a Praça Princesa Isabel já virou clube de camping”.) Estamos em 1975. Meu ego de quatro anos e uns quebrados está nas alturas.
30/01/2025
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
DEU CHINELADA NO DENTE DE CHINA Vejo-me (evoco-me) num extinto mezanino do Shopping Center Iguatemi, em 1991, degustando uma lata de Diet Coke (contém fenilalanina, etc.). Talvez haja sobre a mesa de granito branco uma sacola da extinta Livraria Siciliano, onde talvez haja um exemplar do Manual de redação e estilo do Estadão. Talvez eu esteja prestes a rir de algo que acabei de ler, uma lista de termos pejorativos vetados pelo jornal, palavras que alegadamente agridem raças, nacionalidades, orientações políticas, etc. – china (como sinônimo de chinês), vermelho (como sinônimo de comunista), carcamano (como sinônimo de italiano), etc. É bastante possível, também, que eu esteja sob efeito de uma cena que vi em Wild at heart, direção de David Lynch. Assisti ao filme por esses-aqueles dias, talvez num cinema aqui nesse shopping, o Iguatemi. A cena é aquela em que o Nicolas Cage enfia a mão no meio do traseiro de uma mulher que está subindo uma escada. Etc., etc. Todos fumam o tempo todo no filme (v. Nicotina, Os Replicantes). David Lynch morrerá nos primeiros dias de 2025, de nicotina, enfisema, DPOC e alguma praga rogada pelo doutor Drauzio Varella. A cena da escada me acompanhará vida afora.
EMPREGADA É SUGADA PELO RALO DA PIA DA COZINHA O Externato Meu Xodó (“que falta me faz um xodó”, etc.) foi a primeira instituição de ensino que frequentei, entre 1974 e 75, Rua Cajaíba, Pompeia, etc. Ainda tenho a primeira Bíblia que folheei, que era da minha avó Maria (Scarpini Haak). Embora ainda não soubesse ler, em 1974-75, sabia reconhecer analogias e semelhanças. Quando vi que a Bíblia tinha um livro chamado Êxodo, fiquei intrigado, tentando imaginar o que aquele livro caindo aos pedaços contava sobre a minha escola – Êxodo, xodo, xodó, meu xodó, Externato meu Xodó. Em 1974-75, por um breve período, minha constituição física adquiriu uma absurdidade plástica que o Salvador Dalí aprovaria. Basicamente, eu passei a enxergar através de minhas mãos, que eram vazadas por uma forma circular com, hum, cinco centímetros de diâmetro. Noutra ocasião, idem 1974-75, meu primo Boi me falou que a Dete, a empregada da minha tia, tinha sido sugada pelo ralo da pia da cozinha. Eu disse que queria ver. Subimos em duas cadeiras e nos debruçamos sobre a pia. Sim, a Dete estava lá, presa no ralo, gritando o nome da minha tia, pedindo que alguém a tirasse de lá. Passei a morrer de medo de olhar para dentro de ralos.
OLHE FIXAMENTE PARA OS PEITOS SENSACIONAIS DA PATRICIA ARQUETTE David Lynch foi um surpreendentemente bem sucedido mestre de cerimônias de um tipo particular de show de horrores. Apesar das firulas de sofisticação, dá pra ver que Lynch tinha uma mentalidade trash. Lembro-me quando ele esteve aqui fazendo palestras sobre meditação, hipnose, etc. Só puxa-sacos ao redor dele. Um desperdício. Por que não o apresentaram ao Sady Plauth? Por que não exibiram para o Lynch o filme No calor do buraco, talvez seu filme mais radical? Certeza que o Lynch iria adorar e, se bobear, iria transformar o Sady num cineasta internacionalmente conhecido.
(E aí, seus panacas, já compraram as bandeirinhas de festa junina (v. Alfredo Volpi) verde e amarelas para torcer por Ainda estou aqui? Não quero ser estraga prazeres, mas acho que tanto o Mauricinho Lírico quando a Fernandinha Bochechas Eróticas vão levar fumo. Sentemo-nos e aguardemos.) (Aguardemos é o caralho. No dia do Oscar vou me encher de Rivotril pra não correr o risco de escutar os inteligentinhos da zona oeste (v. Luiz Felipe Pondé) soltando rojões se a Fernanda ganhar.)
CAPAS DE PLAYBOY QUE NÃO EXISTIRAM, TALVEZ PORQUE A HUSTLER TENHA CHEGADO ANTES A fulana que tem as nádegas apalpadas pelo Nicolas Cage em Wild at heart. A mulher é linda e não consegui descobrir o nome dela. Acho que não está creditada no elenco. De qualquer forma passados trinta e quatro anos hoje ela deve ser uma velhusca toda estropiada, cheia de botox, etc., etc.
28/01/2025
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
MOB RULES “Pó e putaria, coisas que dão muito dinheiro nesse país esfuziante”, assim diz José Zakkai, vulgo Nariz de Ferro, futuro CEO do Escritório Central, holding congregadora de um blend de negócios lícitos (de fachada) e ilícitos (pó, putaria, etc.), isso tudo no romance A grande arte, Rubem Fonseca, 1983. Walter Salles fez um filme medíocre, homônimo, baseado no livro. O filme é de 1991. Nele, o Mauricinho Lírico, herdeiro do banco que nem parece banco (v. Marcelo Camisola), atenua o “tá tudo dominado”, os negócios dos antigos bacanas do eixo Rio traço São Paulo, então descapitalizados e decadentes, sendo irrigados por “pó e putaria”. Transforma Peter Mandrake, Édipo trágico de outra maneira, porque no livro ele revela que certas esfinges são mesmo indecifráveis, num fotógrafo (clichê ultrabatido) gringo deslumbrado com o suposto exotismo do Rio, fotógrafo esse interpretado por Peter Coyote. (Coyote está a cara do Iggy Pop no filme. Giulia Gam, hum, digamos que está até que gostosinha desfilando com uma minissaia preta de couro, apesar da cara de nhoque ao sugo.) Em relativa defesa de Walter Salles posso dizer que ele não foi o único que leu muito mal o livro do Rubem Fonseca. A quem tivesse olhos para ver, todo nosso futuro já estava ali, nesse livro, numa síntese imaginativa soberba. Seria tão difícil assim ler A grande arte, olhar o mundo ao redor e constatar que um universo todo havia sido descortinado? Bem, talvez fosse impossível. Lembro-me bem do que era o imaginário, as crenças e as superstições do brasileiro médio (ou mesmo do supostamente superior) de 1983. Era uma mistura de espiritismo (“Leia Kardec”), Programa Flávio Cavalcanti e algum disco de piadas do Ari Toledo. (Há outras possibilidades de mistura, igualmente péssimas.) A divisa do Brasil, em vez de ordem e progresso, deveria ser mob rules ou o ruim predomina ou tudo que é bom estraga e tudo que é podre prospera nessa merda de país. (Olavo de Carvalho diz uma imensa bobagem quando afirma que os últimos livros de literatura ficcional que captaram de modo abrangente o que era o Brasil foram Quarup, de Antônio Callado, e Pessach: a travessia, de Carlos Heitor Cony. Comparados ao livro de Rubem Fonseca, esses não passam de dois livrecos provincianos e ingênuos.)
BOTA UM PONTA, TELÊ Admito que, aos onze anos, fui um espectador apaixonado da Copa de 82. Hoje, revendo gols no YouTube, até acho os lances bonitos (o gol do Sócrates contra a Itália), mas o tom histérico da narração do Luciano do Valle, aquela gritaria toda, a musiquinha ufanista herdada da Copa de 70, noventa milhões em ações ao portador, etc., me dão uma sensação de pesadelo revivido. (Em episódios recentes, Arthur Moreira Lima foi homenageado na sede do Fluminense F. C. e Marcos Valle fez um vídeo cantando e tocando com a camisa do Botafogo F. R. Em algum momento o futebol deixou de ser o ópio do povo e vestir a camisa, literal e metaforicamente, se tornou quase que uma obrigação, um indicador de sensibilidade social, Lula corintiano, etc. A meu favor posso dizer que faz mais de quarenta anos que torço para que o futebol acabe.)
CAPAS DA PLAYBOY QUE NÃO EXISTIRAM, MAS QUE DEVERIAM TER EXISTIDO Márcia Bulcão, em dezembro de 1984. Márcia era uma das vocalistas da Blitz, ao lado da Fernanda Abreu. As duas eram lindas, mas Márcia fazia bem mais o meu tipo. Certamente elas receberam na época propostas para serem fotografadas, e se não rolou deve ter sido por alguma cláusula contratual da Blitz. (A propósito, estava me lembrando outro dia que o Evandro Mesquita foi garoto propaganda dos cigarros L&M nos anos 1990, “te encontro na sessenta e seis”. E que o Ricardo Petraglia, Dick Petra, fez propaganda eleitoral para o Paulo Maluf, também nos 1990s.)
11/01/2025
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
AINDA ESTOU AQUI Fernanda Torres estava um chuchu em sua estreia na TV, 1983, Eu prometo, uma daquelas besteiradas sem fim que a Janete Clair escrevia e que deve ter inspirado o Dinho Ouro Preto a sempre ver a Rede Globo com uma arma na mão (quando aparece o Francisco Cuoco, adios televisão, etc.). Janete morreu enquanto escrevia a besteirada (Clô, em O astro, sugerindo que levassem não sei quem pra casa de helicóptero, já que o helicóptero estava “enferrujando na garagem”; você entraria num helicóptero desses?) e Fernanda Torres, então com novíssimas bochechas eróticas (dezoito anos), estava com uma adorável cara de maconheira fazendo papel de uma das filhas do Cuoco. Talvez Fernanda concorra ao Oscar esse ano. Já estou até vendo a cena, and the Oscar goes to, fogos espocando na Vila Madalena, a Fernandinha com a estatueta na mão, close no Mauricinho Lírico (v. Marcelo Mirisola), Brasil-sil-sil-sil-sil, e, sim-como-não?, o Tema da vitória do Ayrton Senna tocando. (Você já corou de vergonha só de ler essas linhas? Eu já.)
MYANMAR Horrenda essa história dos rapazes vítimas de tráfico humano no sudeste asiático. (Myanmar parece nome de imobiliária fuleira da Praia Grande.) Desde que eu vi The deer hunter, Michael Cimino, 1978, o zoinho puxado berrando “mao!” e descendo a mão na cara de Robert de Niro e Cristopher Walken, obrigando-os a jogar roleta russa, que, admito, eu tenho um pé atrás com o sudeste asiático. (Horrenda mesmo a história toda, mas já até imagino a Netflix fazendo um filme no estilo kitsch-netflix com o episódio. Afinal, nada se cria e a vida é um filme ruim onde nós, atores pra lá de sofríveis, interpretamos papéis invariavelmente idiotas, etc., etc.)
(Se fosse feito um filme fortemente xenófobo como Expresso da meia-noite – o carcereiro balofo da prisão turca morrendo com a nuca atravessada por um prego – ou mesmo The deer hunter – o zoinho puxado levando um tiro na testa – podia até que ficar legal.)
TELMO MARTÍRIO Lembrando-me aqui de Telmo Martino (1931-2013) e rindo de coisas escritas por ele, “Janete Clair é uma escritora que se mudou tão rápido do Meier para o Leblon que se esqueceu de tirar o pinguim de cima da geladeira”. (Sério, só na cabeça da Janete helicóptero ser guardado na garagem de casa – não em um hangar – e sua, entre aspas, manutenção seja dar uma voadinha com ele de vez em quando pra “tirar a ferrugem”.) Vou ver o que tem sobre o Telmo (v. Joelho de Porco, Telmo Martírio) na internet. Nada. Uns obituários protocolares e um texto curto do Paulo Nogueira. Nada além disso. Como pode? Acho que foi o Paulo Francis que disse que subdesenvolvido não tem memória. Touché, touché.
GRACINHA Desde 1989 eu votava na FMU (Fui Mal na USP) da Rua Iguatemi. Há uns anos a FMU fechou esse campus e votei em duas eleições num colégio na Rua Cojuba. Fui transferido à revelia para uma faculdade na Rua Casa do Ator, onde anulei meu voto na eleição Lula Bolsonaro, e em janeiro desse ano pedi transferência para uma seção eleitoral perto de casa, na Escola Nossa Senhora das Graças, Gracinha, onde fui aluno entre 1978 e 1984. O prédio do Gracinha foi razoavelmente modificado, ampliado, etc., mas conserva bastante coisa de quarenta anos atrás. Talvez por alguma razão contratual, ainda há um telefone público no mesmo lugar, no corredor interno do piso térreo, junto à escadaria. No segundo turno, Nunes Boulos (votei em Nunes), encontrei-me com o Lobo, que foi meu colega ali no Gracinha, além de amigo próximo por alguns anos. Não o via desde 2004, quando nos esbarramos na Rua Tabapuã, ele indo ao dentista, eu indo sabe-se lá fazer o quê. Lobo está com a mesma cara de sempre (parece aquele tarado que estalqueia a piranha no clipe de Rainbow in the dark, do Dio). Era uma figura divertida. Veio para o Gracinha expulso (convidado a se retirar) do Dante. Tinha uma porrada de irmãos bem mais velhos, porras loucas highbrow dos anos 1970, então Lobo sabia de um monte de coisas que nós, menininhos cabaços de onze, doze anos, não sabíamos. Conheci o Plínio Marcos através do Lobo, por exemplo. Ele nos chamava de Boneca do Negrão, que é a maneira como o Paco chama o Tonho em Dois perdidos numa noite suja. Manjava um bocado de política e geopolítica, estando mais à direita no espectro. Ao contrário do que o povinho mais enragé pensa, o Gracinha nunca foi apenas um reduto de esquerda caviar (avant la lettre). Era (e creio que continue sendo) um blend de gente da altíssima burguesia que não estava nem aí para nada, nem para ninguém, gente da alta burguesia querendo fazer contatos (diretores da Pirelli que doavam bolas de vôlei pra escola para serem paparicados pela APM, etc.), quatrocentões querendo dar uma de Orlando Villas-Boas, gente de esquerda que, com extensa formação em militância e canalhice, sabia parecer significar mais do que os outros, gente de classe média aspirante a puxa-saco, não importa que saco (o saco dos altíssimos burgueses ou dos comunas), e, por fim, gente de classe média, meio quebrada e sem maiores convicções.
20/12/2024
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
PER DONARE Se a segunda lei da termodinâmica, a entropia, fosse a lei absoluta que rege o universo, o universo já teria se esgotado, game over, c’est fini. Aparentemente, os declínios e as decadências são compensadas por uma antientropia – o universo é constantemente renovado por dados que não estavam dados nele de início. Algo de fora o nutre, em suma. O perdão (ao menos o perdão cristão, e talvez não só ele), se bem observado, é uma antientropia – per donare, completar o dom, completar o que foi dado. O perdão, bem mais do que uma, entre aspas, lei moral, é o elemento constitutivo fundamental de que o universo é feito. O autor desse pensamento? Olavo de Carvalho. Como um sujeito com esse altíssimo calibre intelectual foi se meter com essa escória da direita brasileira pra mim é um enigma.
DAVID NEVES Sempre me lembro de Muito prazer, encantador filme de David Neves, 1979, como um instantâneo daqueles raros e isoladíssimos momentos em que o brasileiro (ou o ser humano?) experimenta algum apogeu, apogeu esse invariavelmente seguido de uma violentíssima e inexplicável queda. “Crônica de costumes com leves tintas de drama”, pode-se definir assim o filme. Está tudo bem (maravilhosamente bem) no Rio de Janeiro de 1979. Os sócios de um escritório de arquitetura (Cecil Thiré, Otávio Augusto, Antonio Pedro) tocam suas vidas prósperas e sem afetações. São casados com mulheres bonitas e interessantes (exceto Antonio Pedro, cuja solterice é alvo daquelas especulações de sempre, etc.). Mas o tédio conjugal se insinua e os conflitos sociais rondam por ali, na zona sul carioca, ainda articulados de maneira meio frívola, brincalhona. (Vão brincando, vão.) Apesar da malemolência e da aparente estabilidade daquele mundo, é sabido que o tempo corre (v. Usain Bolt) e que o infinito arranjo de que a realidade é feita sempre está se desarranjando e se rearranjando em novas formas. E que esse processo sempre traz consequências imprevisíveis, talvez mais imprevisíveis ainda em se tratando de Brasil. “Alguma coisa vai dar muito errado no final dessas contas, mas o quê?”, é o que parecem se perguntar os dois casais, sentados lado a lado, no final do filme. “1979” se esvai, segundo a segundo, nos levando para 1980, 83, 1997, 2004, 2028, o esgarçamento, a degradação, etc. Mas nem precisamos esticar tanto a linha temporal. Em Fulaninha, filme que Neves dirigiu em 1986, meros sete anos depois de Muito prazer, a joie de vivre carioca já soa totalmente falsa, ersatz, “a festa já acabou há anos e se esqueceram de avisar os penetras mais recentes”. O que em Otávio Augusto, Cecil e Antonio Pedro era jogo de cintura, charme e saber-viver, em José de Abreu e Claudio Marzo é cafajestagem predatória.
MARROM GLACÊ Pegava muito bem o Ronaldo Resedá, dançarino, cantor, coreógrafo, etc. O clipe de Marrom glacê, 1979, foi rodado no extinto (e demolido) Buffet Torres, Rua Horácio Lafer, 430, Itaim-Bibi, São Paulo.
ANDY WAHROL Se não insistirmos em ver em Wahrol aquilo que não há nele, ele é um ilustrador divertido e até que interessante. Tudo nele é jocoso e fortemente irônico. Como realização plástica, visual, é de uma modéstia exemplar. Daqui a duzentos anos talvez alguém gargalhe olhando para a serigrafia do Elvis Aaron Presley fantasiado de cowboy e se pergunte, “quem era esse sujeito com essa cara estupidamente bovina?”.
CAPAS DA PLAYBOY QUE NÃO EXISTIRAM, MAS QUE MERECIAM TER EXISTIDO Ná Ozzetti, em julho de 1988. Quem tem alguma dúvida sobre o estrago que uma Playboy com a Ná Ozzetti teria feito nessa época, olhem a foto da moça na capa de seu primeiro álbum. (A propósito: muito legal a música A olhos nus, a versão do álbum Ná e Zé, o Zé é o José Miguel Wisnik, autor do indispensável O som e o sentido, livro de onde o Vladimir Safatle tira todas, entre aspas, suas ideias sobre música.)
16/12/2024
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
TOMAR BANHO DE CHAPÉU Se aquele bolha do Antonio Abujamra voltasse do além e me perguntasse, “Eduardo, o que é a vida?”, eu responderia: a vida é um filme ruim, onde nós, atores pra lá de sofríveis, interpretamos papéis invariavelmente idiotas. Nossa única, entre aspas, salvação, nossa única possibilidade de dignidade é que podemos cultuar uma consciência aguda, sem qualquer “não é bem assim”, de que a vida é exatamente isso, um filme idiota, etc.
ESPERAR PAPAI NOEL Fernanda Torres, com as bochechas mais eróticas do que nunca, cotada para Oscar. O filme é dirigido pelo mauricinho lírico, dono do banco “que nem parece banco”, etc. (Marcelo Mirisola com livro novo, Espeto corrido. Confiram.)
DISCUTIR CARLOS GARDEL Gosto muito de Blecaute, livro que Marcelo Rubens Paiva lançou em 1986. Quando o mais baixo estrato da militância esquerdista esperava que ele fosse passar uma quarta marcha e falar explicitamente de coisas que ficaram apenas implícitas em Feliz ano velho, Marcelo veio com um livro que era (é) uma ode ao vazio, a um universo que, súbita e inexplicavelmente, perde a inteligibilidade. Marcelo naquela época vivia dizendo coisas que deviam arrepiar “petistas” e tipos afins. Lembro-me de ele falando na Paula Dip (1987, 88, Paulista 900, Rede Gazeta) que ele tinha estado em Cuba recentemente e que, bem, ele tinha visto a merda que era viver num “país de funcionários públicos” (sic). Lembro-me de ele dizendo que o prefeito que até então (anos 1990) havia feito mais coisas em benefício dos portadores de necessidades especiais tinha sido o Paulo Maluf. Na verdade Paiva até hoje emite declarações desse tipo. Ri muito quando ele falou de um amigo que era plantador de maconha e bolsonarista.
JAIR JÁ ERA Bolsonaro e um punhado de oficiais em maus lençóis por causa daquela tentativa de golpe de estado em que uma horda de animais vandalizou Palácio do Planalto, STF, etc. Na época eu achava que o Alto Comando do Exército não ia se queimar por um tipo tão chinfrim quanto o Jair Messias. No final das contas, a despeito da adesão de um oficial ou outro, “kids pretos” indo prender e matar o Xandão (Lula e Alckmin também seriam mortos), o que de fato aconteceu foi o que previ, os quinze generais do Alto Comando não endossaram a maluquice criminosa de Jair & os Aloprados.
DEMOLIÇÕES O Extra da Juscelino Kubitschek finalmente demolido. No terreno vão construir algum centro empresarial cheio de Eudes, “os colega (sic) da firrrrma”. Em meus cinquenta e três anos vi o terreno abrigar o depósito do Mappin, o Mappin Itaim e o Extra.
FAVELADOS Nicodemos era a maior favela do Itaim-Bibi. Ficava também na Juscelino. Ouvíamos histórias de que os moradores de lá se esfaqueavam em brigas por causa do precário abastecimento de água, etc. Outra favela aqui do pedaço era a Cidade Jardim. É nela que William Hurt é largado, agonizante, em O beijo da mulher aranha, Hector Babenco, 1985.
TRÓPICO DE CÂNCER, ENFISEMA, ETC. Leio que Kate Bush foi fumante (de cigarros) dos nove aos quarenta e dois anos. Quem é velho o suficiente talvez se lembre das propagandas dos cigarros Hollywood, com o planador e Wuthering heights e com o balão e Strange phenomena. Leio também que David Lynch está com enfisema, depois de ter fumado por sessenta e seis anos (dos oito aos setenta e quatro). Diz não se arrepender de ter fumado, e acredito. Lynch usufruiu de uma das coisas que mais amava por mais de seis décadas, além de ficar bem à beça nas fotos fumando.
OLAVO TEM RAÇÃO Lembrando-me aqui que há alguns meses Heloísa de Carvalho, a filha deserdada pelo Olavo, disse que o pai era frequentador do Madame Satã nos anos 1980. Isso quer dizer que se você baixasse na Conselheiro Ramalho numa noite qualquer de 1984 é muito provável que encontrasse por lá Cazuza, João Gordo e Olavão vendo as perfórmances da mulher repolho. O Madame, hoje, não passa de uma festa de Halloween brega.
01/12/2024
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
PORTNOY Não me lembrava que Portnoy’s complaint termina com um quase estupro (para a sensibilidade contemporânea, etc.), que só não se consuma porque o caramuru de Alex dá chabu. Ri muito em várias partes do livro, como na parte em que ele, Alex, fala sobre a “legítima privada goyische” onde o pai de sua namorada, a Abóbora de Davenport, Iowa, dá suas cagadas gentias.
FILME PSEUDOIRANIANO Gostei muito do filme pseudoiraniano A girl walks home alone at night, USA, 2014, direção de Ana Lily Amirpour. Vampira que anda de skate (de skate e com aquelas roupas pretas que os aiatolás obrigam as mulheres a usarem no Irã) sai por aí estraçalhando as carótidas de homens maus, misóginos, etc. Quem não vê ironia nesse enunciado, que desdefine, pelo exagero quase caricatural, cinema iraniano e feminismo, é mulher do padre. A atriz que faz a vampira, Sheila Vand, é tremendamente bonita e, ao que parece, é uma boa atriz. Lembra a Lilian Lemmertz. Imagino o estrago que Walter Hugo Khouri faria dirigindo a moça.
MOVIDO A ÁLCOOL SÓ O MOTORISTA Era um adesivo que os engraçadinhos colavam no vidro do carro lá por 1982, porque os carros a álcool (hoje etanol) eram então obrigados a ter um selo colado no vidro, Movido a álcool, coisa do governo para tirar dinheiro do, sei-bem, contribuinte. (Aliás, alguém se lembra daquela macaquice de ficar buzinando nos túneis da Imigrantes, só de zoeira?)
ACHEI O DISCO QUE PROCURAVA HÁ ANOS, ETC. É (ou era) um adesivinho em formato de guitarra que era colado nas capas dos discos da loja Eric Discos, Rua Arthur de Azevedo, Pinheiros, São Paulo. Duas outras músicas que levei décadas para saber o nome, autor, intérprete, etc.: Flying vegetables of the apocalypse, de Guy Klucevsek, e Is it o.k. if I call you mine?, de Paul McCrane. A do Klucevsek eu ouvi uma vez, em algum momento dos anos 1990, na Cultura FM, 103,3. Ouvindo trinta anos depois, pareceu-me uma peça minimalista meio mal ajambrada, de alguém que não é do ramo. A canção do Paul McCrane eu achava, sei lá por que, que era da trilha sonora de Garota do adeus ou da trilha sonora de Mulher descasada. Na verdade é da trilha de Fame. (E dá-lhe velharias.) Não é ruim, a música do McCrane, mas logo dá no saco a coisa choramingas do sujeito feioso pedindo licença para chamar de sua a fulaninha, etc. (Uma vez escrevi um e-mail para a Cultura FM perguntando o nome da música usada como vinheta pela estação, etc. Os comunistas safados não me responderam. Acabei descobrindo por acaso que era Lollapalooza, de John Adams.)
PORNOGRAFIA Vi uma vez um debate de uma atriz pornô com um sujeito que questionava alguns aspectos da escolha profissional da moça, etc. Uma hora ele disse: se você se deixa ser filmada com uma vela enfiada no cu, não poderá dizer, daqui a vinte anos, que fez papel de bolo de aniversário no filme.
(Emoticon de risos.)
ALBERTA#3 Fui uma única vez ao Alberta#3, bar na Avenida São Luís que, soube agora, morreu de covid, lockdowns, etc. Foi em 2017. Passei lá para matar o tempo antes de ir a um lançamento de livro, Roberto Bicelli, Antes que eu me esqueça, versão revisada e ampliada, 2017. O lançamento foi na livraria Tapera Taperá, Galeria Metrópole. Descubro também que uma casa noturna que hoje existe na Vila Olímpia começou em 2006 no Conjunto Zarvos, ao lado do Alberta#3. O Centro viveu um breve momento de aparente revitalização na década passada, mas a brincadeira durou pouco, logo vieram os assaltos, etc. Hoje só dá pra passar por lá de carro blindado ou de – boa pedida? – tanque Merkava israelense.
Buuuum!
(E aquela cascata de que o Kiss havia comprado o tanque de guerra sobre o qual a bateria do Eric Carr era montada – um “tanque de guerra” feito de cartolina e papel alumínio – do próprio exército americano? Éramos tão caipiras em 1983 que caímos até nessa.)
(Procurem no Youtube Antes que eu me esqueça, curta metragem que Jairo Ferreira rodou em 1977 no primeiro lançamento do livro do Bicelli. Entre outras curiosidades, vemos um adolescente chamado Eduardo Giannetti da Fonseca – pai do Joel Pinheiro – lendo uns poemas, etc.)
03/12/2023
O AVESSO DA VIDA, DE PHILIP ROTH, por Eduardo Haak
Você tem trinta e nove anos, é alto, moreno, atlético, boa pinta. Você, não só como também, é um dentista bem reputado. É casado e tem três filhos. Tem amante, é claro. Sua amante é sua assistente no consultório, a quem você se refere como “Boca”, por causa de suas, hum, habilidades orais. Num check-up de rotina você, que se chama Henry Zuckerman, descobre que está com um problema cardíaco, umas obstruções, etc. Como o ano é 1978, ainda não há stents. Ou você se trata com betabloqueador, ou se aventura numa ainda arriscadíssima cirurgia de ponte de safena. Você experimenta o betabloqueador, mas o medicamento te deixa impotente. Você se desespera. Passa a surrar eventualmente sua amante. Resolve, então, entrar na faca, mas morre na mesa de cirurgia.
Aquilo que acontece não pode desacontecer, etc. Mas estamos no reino da ficção, onde todas as possibilidades do real podem ser testadas, sem que uma contradiga a outra. Possibilidades, no plural. Na primeira, você faz a cirurgia e morre. (Sua mulher, Carol, discursando no velório, afirmou que você fez a cirurgia por ela, em nome da plenitude do amor conjugal, etc. Talvez desconfiasse da “Boca” e resolveu marcar território, mesmo depois de você morto.) Na segunda, você sobrevive à cirurgia, mas passa por uma metanoia (ou colapso nervoso) que acaba te levando para Israel, onde você se torna uma espécie de discípulo de um sionista radical chamado Mordecai Lippman e vai morar num colonato em Hebron, Cisjordânia, deixando para trás mulher, filhos, “Boca”, consultório elegante em Upper East Side, etc. Seu irmão, Nathan Zuckerman, com quem você está rompido desde que ele publicou um livro chamado Carnovsky, livro em que os judeus em geral e a comunidade judaica de Newark, New Jersey, em particular (e a família Zuckerman mais particularmente ainda) é tratada de forma jocosa, seu irmão Nathan foi atrás de você para interrogá-lo sobre essa coisa de morar num assentamento em Hebron, andar armado, aprender hebraico depois de velho, etc.
Na terceira “possibilidade do real” quem teve o problema cardíaco, ficou impotente, resolveu ser safenado e morreu na cirurgia foi Nathan, o tal escritor que demonstrou não ter nenhum esprit de corps em relação à judeuzada de Newark, etc. (Há analogias entre Nathan Zuckerman e seu Carnovsky e Philip Roth e Portnoy’s complaint. Roth também foi acusado de fornecer farta munição para os antissemitas.) Henry, seu irmão, depois do velório vai sorrateiramente ao apartamento de Nathan e descobre que Nathan estava escrevendo um livro cheio de indiscrições sobre o caso que Henry vinha tendo com sua assistente. Surrupia todas as páginas com as tais indiscrições, etc. Ofende-se mais uma vez com a convicção central de Nathan, sua cláusula pétrea, convicção de que as pessoas comuns não passam de personagens literários pouco amadurecidos à espera de um escritor que lhes dê plenitude. E, se as pessoas comuns não passam de idiotas à espera de um escritor que exponha sua idiotice, que assim seja. (Essa discussão moral de “quem representa os verdadeiros valores da vida” perpassa a obra de Roth. O pêndulo sempre está oscilando, ora para os observadores debochados dessa criatura patética, o ser humano (por acaso judeu), ora para o outro lado, pessoas decentes, trabalhadeiras, abnegadas, que se perguntam se é justo que pessoas decentes, trabalhadeiras, etc., sejam tratadas na base do chicote por um escritor sádico, narcisista, sem qualquer senso de responsabilidade ou moralidade, que sacrifica tudo pela piada, de preferência antissemita. Até onde li Philip Roth, seu livro que mais advoga o lado dos humanos-por-acaso-judeus trabalhadores, decentes, abnegados, etc. é Pastoral americana. Um livro, como não poderia deixar de ser, bastante chato.)
Noutra “possibilidade do real” Nathan está impotente e se apaixona por uma vizinha recém-mudada para o prédio, inglesa, casada com um figurão do serviço diplomático. A mulher se chama Maria. Os dois têm um caso sem sexo, mas com muita conversa. (Maria é inteligente e loquaz, mas não demora muito a se mostrar convencional, enfadonha, etc. Talvez toda mulher, a despeito de seu brilho eventual e das cinco ou seis palavras sacadas do léxico feminista que ela use em profusão, esteja mesmo destinada a terminar bordando seu paninhos de prato e discutindo o preço das cortinas novas.) Nathan propõe que Maria se separe do marido e se case com ele. Aos quarenta e cinco anos e, no entender dele, feminilizado pela impotência, Nathan passou a acalentar a ideia de ter um bebê. Fará a cirurgia arriscada, etc. Maria, não sem hesitar, acaba rejeitando a proposta de Nathan.
Noutra, “possibilidade do real”, Maria se separou do figurão do serviço diplomático e engravidou de Nathan, o safenado. Precisarão se estabelecer na Inglaterra, por causa de um termo do divórcio com o figurão, etc. Vão a Gloucestershire para que Nathan conheça a sogra e as cunhadas. Elas são esnobes e provincianas, e há, sim, algo de antissemita nelas, mas Nathan exagera na reação. Tudo na Inglaterra lhe parece um dedo acusador lhe apontando e dizendo judeu judeu judeu. (Woody Allen em Annie Hall falando do vendedor da loja de discos lhe dizendo que os discos de Richard Wagner estavam em oferta, etc., etc.) A paranoia escrutinadora de Nathan acaba levando Maria a dizer coisas que causam um estrago irreparável na relação deles. Interrogada, ela diz que, sim, não gosta de ir a Highgate e Hampstead, bairros de Londres com forte presença da comunidade judaica, porque não gosta de se sentir uma estrangeira em seu próprio país.
O livro termina epistolarmente, Nathan cá, Maria lá, tudo é ficção, nada é ficção. Você, leitor, está com um monte de impressões boiando em sua mente. Há algo de insatisfatório nessa coisa de realidades alternativas que se sobrepõe e se contradizem sem se contradizer. (Chispa, Eudes, isso não é assunto pra mocorongos.) Todas resvalam para a mesma vala comum de projetos existenciais antes abortados do que fracassados, abortados por desinteresse e exaustão. (O pós-modernismo, etc., etc.) Mordecai Lippman, o sionista radical, mereceria um percurso dramático completo, não a breve cintilação seguida do arbitrário abandono. Idem os outros personagens. O avesso da vida, Counterlife, publicado em 1986, reforça a impressão de que Philip Roth escreveu uma única obra-prima, Portnoy’s complaint, e escreveu outros trinta livros (uns melhores, outros piores) para desconversar o Portnoy. (Leiam o Portnoy, mas na edição antiga, da Abril. A tradução atual, de Paulo Henriques Britto, eliminou uma série de achados sensacionais e hilários da tradução anterior, como atrevidona e Maricas da Palestina.)
26/11/2023
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
OPERAÇÃO SHYLOCK É um romance de Philip Roth lançado nos anos 1990. Comprei meu exemplar num sebo em 2001 e o li na ocasião. (Emprestei-o para uma quase namorada, judia sefaradita, em 2006, e a moça não me devolveu.) O personagem principal de Operação Shylock é um sósia perfeito de Philip Roth que, fazendo se passar por Roth, andava pregando em Israel o diasporismo, a volta dos judeus para a Europa. Numa cena particularmente hilária, o falso Roth diz para o verdadeiro que os poloneses iriam chorar de alegria quando os judeus começassem a chegar de trem à Polônia. Ajoelhados na plataforma da estação, bradariam eufóricos, “os nossos judeus voltaram!”. Outro personagem curioso é um judeu ortodoxo, obeso e sórdido como um Nero de Cecil B. de Mille, que trabalhava como advogado em Ramallah para palestinos acusados de crimes contra a segurança do estado israelense. Ao questionar o porquê daquela situação inusitada, Roth fica sabendo que os palestinos só confiavam em advogados judeus, sujeitos que, se quisessem, foderiam de vez com a vida deles. Etc., etc.
O CEMITÉRIO DE PRAGA É um romance de Umberto Eco, acho que o último dele, que conta a história (ficcional) do falsário que forjou Os protocolos dos sábios do Sião. Os protocolos etc. é a suposta ata de uma reunião de rabinos feita na calada da noite no Cemitério Judaico de Praga em que se decidiu o modo como os judeus dominariam o mundo, as finanças, etc. Serviu para botar lenha na fornalha do antissemitismo no século XX, apesar de ser comprovadamente falso. (Tem uma história mais curiosa sobre rabinos reunidos à noite em cemitérios. Em 2005 foi noticiado que um grupo de rabinos havia se reunido à noite num cemitério no norte de Israel para praticar um ritual de magia negra chamado pulsa denura, pedindo a morte do então primeiro-ministro Ariel Sharon, que havia decidido pela retirada israelense de Gaza. Yo no creo en brujas, pero pouco tempo depois Sharon teve um AVC e ficou em estado vegetativo por oito anos, até que morreu, em 2014.)
É ISTO UM HOMEM? Primo Levi dividindo a cama com um sujeito em Auschwitz, o sujeito vai fazer as necessidades, volta com os pés sujos de fezes, se deita na cama, Levi tem de dormir com os pés do sujeito perto de sua cara, etc.
AS LOUCAS AVENTURAS DE RABBI JACOB É uma comédia francesa de 1973 protagonizada por Louis de Funès. Funès faz um francês meio esquentado, meio xenófobo, meio antissemita, que numa peripécia maluca típica de certas comédias acaba tendo de empreender uma fuga disfarçado de rabino. (Para os nervosinhos lacradores de plantão já adianto que o filme tem até black face, numa cena em que Funès mostra-se indignado ao ver um casamento inter-racial e o escapamento de um carro joga um monte de fuligem no rosto dele.) O que é delicioso nesse filme é que tudo – judeus, árabes, negros, franceses xenófobos, etc. – se acomoda num grande, irônico e espetacular rito de integração final.
ISAAC BABEL Antes de ter um caso com uma mulher casada com um figurão da NKVD e acabar sendo expurgado-fuzilado a mando de Stalin, Isaac Babel escreveu um monte contos extraordinários, boa parte deles descrevendo a vida dos judeus no semigueto que então era Odessa. Destaque para o fantástico Benya Krik, espécie de Don Corleone asquenazi, herói e anti-herói, ambíguo e cheio de gradações de cinza, porque preto-ou-branco é coisa de Greta Thunberg, que pelo jeito vai ganhar o Prêmio Wandinha Adams de azedume pelo décimo ano consecutivo.
SAUL BELLOW Inesquecível o velho Arthur Sammler, sobrevivente do holocausto, etc., estalqueando um dândi afroamericano – casaco de couro de camelo, óculos redondos Christian Dior com lentes violeta, etc. – que batia carteiras num ônibus no Brooklyn, Nova York. O dândi, quando percebe, segue Art, o encurrala num beco, abaixa as calças e lhe mostra algo digno de concorrer com John Holmes e Long Dong Silver. Vita brevis, ars longa.
Etc., etc.
16/11/2023
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
NON DUCOR DUCO Fui ao Sebo do Messias (“deixai vir a mim os bibliófilos”) semana passada comprar O informe de Brodie, único livro de contos de Jorge Luis Borges que ainda não havia lido. Depois fui dar uma volta pelo Centro. Desci a Rua Direita, entrei no Viaduto do Chá, atravessei a Barão de Itapetininga, virei na Ipiranga e depois na São Luís. O Centro está melhor, depois da devastação provocada por covid, lockdowns, etc. Segui até o Conjunto Zarvos, onde Walter Hugo Khouri rodou uma cena de Noite vazia. Descobri que o lugar está tombado desde 1992.PALÁCIO DOS CEDROS A casa fica no Ipiranga e pertenceu à família Jafet (sim, da avenida dos motéis). Hoje é um buffet, festas de casamento, debutante, etc. O Eudes (“os colega da firrrma”) e a Rose quando casarem vão fazer a festa lá. Dizem que o lugar “parece de conto de fadas” (Rose) e é interessante do ponto de vista “histórico” (Eudes). Sim, de fato, histórico. O famigerado “filme da Xuxa”, Amor estranho amor, Walter Hugo Khouri, 1982, foi rodado no Palácio dos Cedros.CNN Acompanhando noticiários na CNN Brasil, a guerra, etc. Quase todos entrevistados com um português capenga. “Houveram”, verbo impessoal que fica, portanto, no singular, é cometido por quase todos. Para além de erros gramaticais, as frases ditas são mal ajambradas, o vocabulário é impróprio, muitas apropriações do inglês que não funcionam em português, etc. Fica óbvio que essa gente nunca leu um livro que preste na vida. Se é que leram algum livro. (Tive uma, hum, namorada que lia meia página de Norah Robberts por semana. E o pior é que ela nem era propriamente bonita, pra compensar.)BRASIL 247 Ouvir o Pepe Escobar me dá a mesma sensação que tenho ao ler uma prodigiosa e ultrafarsesca página de Thomas Pynchon. Eu digiro bem a coisa e até que curto. Mas gente com a cabeça fraca, sugestionável, não devia chegar perto do elemento.CRENTE DO RABO QUENTE Fulana vem fazendo vídeos de “conteúdo adulto” e seu filho, de dezenove anos, é quem filma. Imagina a sequência de crônicas extraordinárias que o Nelson Rodrigues escreveria a respeito.MARIO FOFOCA Vejo no Dailymotion um episódio do seriado Mario Fofoca, que a Globo produziu em 1983 e que foi um fracasso, ao contrário da novela de onde saiu o personagem, Elas por elas, exibida no ano anterior. A ruindade do episódio, chamado Vista chinesa, talvez explique o fracasso.IBRAHIM SUED TROCA MÃE POR FAIXA DE GAZE As coisas não andam moleza nos arredores da Rua 25 de março, ô meus. É bombardeio todo dia. Segundo apurei, eu, Adoniram Baboseira, o repórter, os caras querem pegar o Ibrahim Sued, que se escondeu num túnel por ali depois de ter vendido a própria mãe no site OLX. Oras, nenhum problema em vender a própria mãe na OLX, mas Sued vendeu e não entregou. O Procon e o Conselho de Segurança da Yoko Ono farão uma reunião de emergência no próximo sábado para discutir o caso extraconjugal. Vai um chopps e dois quibe cru aí?NOW AND THEN A eterna expectativa com a volta dos Beatles tem algo da eterna expectativa dos cristãos com a volta de Jesus, não é mesmo? Pois bem. Enquanto os Beatles não voltarem (e reinarem por mil anos, etc.), os fãs-fiéis terão de se dar por satisfeitos com os simulacros. (“Raspas e restos me interessam”, como disse o Agenor.) Now and then é um esboço de canção, apenas mediana, escrita e gravada em demo por Lennon em 1979. O resultado da junção da voz de John, isolada e melhorada com IA, a guitarra de George, gravada em 1995, Paul e Ringo em 2023, não é propriamente empolgante.06/11/2023
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
BETTER WATCH OUT CAUSE I’M WAR MACHINE Gene Simmons, Kiss, nasceu em Haifa, Israel. Hillel Slovak, do Red Hot Chilli Peppers, também. Consigo imaginar sem dificuldade Hillel como tenente das IDF e Gene (aliás, Chaim Witz) como coronel.
SEM OLHOS EM GAZA É o título de um livro do Aldous Huxley, que não li e não vou ler, não gosto de Aldous Huxley. Refere-se ao episódio bíblico em que os filisteus cegam Sansão e o levam cativo para Gaza, então ele abraça as colunas do templo e diz, “que eu morra com os filisteus”, etc.
O SOM E O SILÊNCIO A onda sonora é formada por um sinal que se apresenta e por uma ausência que pontua a apresentação desse sinal.
DX-7 Sempre achei ridículo o som do Yamaha DX-7. A síntese por frequência modulada, que trabalha apenas com ondas senoidais, relacionando frequência portadora e frequência moduladora, é intrinsecamente ruim e invariavelmente gera aquele timbre blin-blin-blin desse famigerado instrumento musical.
MÚSICAS QUE DEMOREI DÉCADAS PARA DESCOBRIR DE QUEM ERA Rise, do Herb Alpert. Se você quer ser mergulhado imediatamente num clima de lascívia safra 1979, ouça essa música. Rise foi usada e abusada como vinheta de propagandas de motel em idos tempos, mas nunca perdeu o élan. Ela aparece até no filme Liliam, a suja, Antonio Meliande, 1981, numa cena em que a loirona psicopata está com o horrendo Roque Rodrigues num – onde?, onde? – motel.
SPINETTA Provavelmente Mondo di cromo, 1983, não é o melhor álbum de Luís Alberto Spinetta, mas talvez seja o de que eu mais goste. Adoro o clima do disco e duas faixas dele, Yo quiero ver un tren e Días de silencio, estão entre as minhas preferidas de El Flaco. Acho o clima do Mondo parecido com o clima do filme O sonho não acabou, Sérgio Rezende, 1982. Imagino-me namorando a Louise Cardoso, a gente rodando de madrugada por Brasília, aí vamos à torre de TV, eu engraxo (suborno) o vigia noturno, José Dumont, com um Castelo (5000 cruzeiros), aí subimos ao mirante e ficamos lá, namorando, ouvindo no walkman Mondo di cromo e esperando o sol aparecer.
ETHOS Acho uma praga essa mania metonímica de “meu médico”, “meu mecânico”, etc. Uma vez estava tomando café com uma distinta senhorita, então ela pegou o celular e disse, “um minutinho que preciso falar com meu traficante”. Etc., etc. Pensando bem, essa mania vem desde o tempo do onça. Lembrei-me de um artigo do Paulo Francis, ele dizendo que havia encomendado com “seu contrabandista” uns pacotes de Marlboro americano e um disco do Bob Dylan. (O que tem Lay, lady, lay, não sei qual é, sempre caguei pro Bob Dylan.) Sim, todo brasileiro até uns vinte anos atrás tinha “seu contrabandista”. Em 1986, quando o videocassete invadiu massivamente os lares brasileiros, todo mundo comprou com “seu contrabandista” o Panasonic G-9. O aparelho tinha de ser submetido a uma gambiarra tosca chamada transcodificação, de NTSC para PAL-M, e, claro, perdia qualidade consideravelmente no processo.
PIADA VELHA A diferença entre x e y é que ambos vendem a mãe, mas x vende e não entrega.
20/10/2023
UM TREM PARA AS ESTRELAS, DE CARLOS DIEGUES, por Eduardo Haak
Ver Um trem para as estrelas, Carlos Diegues, 1987, passados trinta e quatro anos dá aquela espécie de prazer que experimentamos ao contemplarmos, hoje, uma antiga catástrofe da qual, por alguma misteriosa razão, escapamos ilesos. Sim, como pudemos sobreviver ao final dos anos 1980 é uma questão em aberto. A década foi como uma daquelas festas que começam muito bem (1982, 83, no máximo 1984), mas que lá pelas tantas desandam – uma festa para a qual todos julgávamos possuir a senha de acesso, “hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser, quem vier”, como dizia aquela musiquinha de final de ano da Globo; contudo, não tardamos a descobrir, nós, os supostos possuidores da suposta senha de acesso, que aquela coisa de “quem quiser, quem vier” não passava de uma filosofia inclusiva de araque. A saber: Scarlet Moon de Chevalier deixou de frequentar o píer de Ipanema quando este foi tomado pelo “craudinor” (crowd, multidão). O Asdrúbal Trouxe o Trombone implodiu quando, num fenômeno hiperinflacionário típico daquele tempo, já andava contabilizando perto de trezentos “membros”. A produção brasileira de instrumentos musicais viveu um de seus maiores booms logo após o Rock in Rio, 1985, não deixando desprovidos dos suprimentos necessários os cinquenta mil novos aspirantes a bateristas, baixistas e guitarristas que surgiam por mês (ou por semana) no período. Todo mundo querendo ser artista, levar a vida na flauta, etc. E por aí vai. Contrariando Carlos Marx (“tradução de Nelson Rodrigues”), a(s) história(s) não necessariamente se repete(m) como farsa. Qualquer pessoa que já viveu algumas décadas sabe disso perfeitamente bem.
Apesar de eu apontar nessa abertura que Um trem para as estrelas provavelmente apresenta mais interesse, visto em 2021, para coroas saudosistas a fim de curtir uma onda nostálgica, dado que o tempo que decorreu desde sua realização o transformou num notável retrato de época, não deixo de acreditar que o filme possa interessar aos mais jovens, aos que não têm referências pessoais daquele tempo. Nem tudo no filme é datado – e nem tudo que é datado (nesse ou em qualquer outro filme) é necessariamente perecível. Desde que o mundo é mundo o permanente e o transitório vivem numa tensão dialética irresolvida (e irresolvível). Heráclito e Parmênides gastaram muita saliva nessa discussão sem sair do impasse-empate. (A coisa é mesmo uma espécie de Fla-Flu desde a Grécia Antiga, Clube de Regatas Parmênides versus Heráclito Football Club, zero a zero, dois mil e quatrocentos anos do segundo tempo.) No mais, não poucas pessoas confessam sentir saudade de épocas que elas não viveram. O fetichismo por objetos vintage é um fato mais do que observado. E por trás desse fetichismo sem dúvida está nosso pacto civilizacional, o acordo entre os mortos (passado), os vivos (presente) e os que ainda vão nascer (futuro). Só mesmo uma pessoa dotada de um grau muito patológico de provincianismo temporal seria incapaz de compreender um mundo desprovido de WhatsApp e com carros funcionando com um treco chamado carburador.
Pois bem. Estamos no Rio de Janeiro, segunda metade dos anos 1980. “Rio de Janeiro” pode induzir o leitor ao equívoco de pensar imediatamente em joie de vivre, praia, sol. Não, nada disso. Estamos num Rio noir, quase blade-runneriano. Numa feliz e notável escolha de direção, Diegues não mostra nenhuma vez no filme qualquer paisagem clichê da Cidade Maravilhosa. Helicópteros sobrevoam cemitérios de carros, aglomerados de prédios comerciais recortam a linha do horizonte – a paisagem parece um pouco a de Los Angeles Downtown vista a distância. Estamos, em suma, num Rio sem praia, sem Garota de Ipanema, sem o consolo e as compensações do belo. Vina, Vinícius, Guilherme Fontes, é um jovem saxofonista que vive entre uma gig e outra (ora acompanha Cazuza, ora Fausto Fawcett, etc.). Tudo o que herdou do pai, já morto, foi um sax tenor e uma pilha de estropiados discos de jazz. Mal vê a mãe, Camila, Betty Faria, que é dançarina do show “As Mimosas Eróticas”. Mora com um tio, técnico de rádio e TV (“Instituto Universal Brasileiro”), num mostrengo modernista plantado no subúrbio, Guadalupe, espécie de versão carioca do Gropiusstadt berlinense, lar de Christiane F., etc. Namora Nicinha, Eunice, Ana Beatriz Wiltgen, garota bonitinha com ar inocente que trabalha como vendedora numa loja de surf. De um dia para o outro Nicinha some, não aparece mais no emprego, etc. Vina vai à polícia e narra o ocorrido. O delegado Freitas, Milton Gonçalves, se interessa bastante pela história de Vina, o Orfeu do sax, e não dá mais sossego para ele.
A trama de Um trem para as estrelas alude remotamente ao mito de Orfeu e Eurídice, o jovem tocador de lira que vai ao mundo dos mortos resgatar de lá sua amada, etc. Remotamente, sim, porque Vina praticamente nada tem de Orfeu. Interessa-se por Nicinha apenas como espectadora de seus arroubos narcisistas. Nicinha, se é que já foi apaixonada por Vina, no momento não é mais. Vina nem percebe, hipnotizado pela própria discurseira solipsista e pelo som do próprio sax. Daí que a busca que ele empreende a partir daí parecer meio duvidosa. Vina ora parece aflito, ora entediado ao tentar esclarecer o sumiço da moça. No fundo preferiria deixar o assunto pra lá, mas o delegado, que intimamente aposta na não inocência de Vina no caso, está determinado a tirar a história a limpo, “Você não deve nada, não, né, garoto? Pensa bem. Todo mundo tem um esqueleto guardado no armário”.
No périplo a que se lança meio a contragosto Vinícius-Vina se deparará com uma sequência de impressionantes criaturas em seus instantes de minúsculas (ou imensas, impossível decidir) fulgurações, todos habitantes de um universo que aparentemente deixou de ter qualquer integridade e inteligibilidade: Zé Trindade, pai de Nicinha, que passa os dias sentado num dos elevadores do Edifício Paulo de Frontin, bebendo suas cervejas e fazendo suas cantorias (a cena parece cômica, uma típica situação de chanchada, mas no contexto expressa apenas desespero e horror); Miriam Pires, mãe de Nicinha, uma velha histérica viciada em TV cuja presença cênica, soberba e horripilante, evoca a aparição da mãe-caveira de Norman Bates em Psycho, Alfred Hitchcock, 1960; José Wilker, um jornalista bêbado que, em avançado estado de embriaguez, fica pedindo insistentemente ao “maestro” que toque Blue moon, isso durante um show do Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros, num bar todo decorado com néon e mobiliário em estilo Memphis (Wilker, claro, é ignorado, e Fausto prossegue narrando a história da sereia silicone copacabanense que vive despejando purpurina nas macumbas mofadas); Daniel Filho, também jornalista, jornalismo popular, id est, marrom, sensacionalista, fazendo praticamente o mesmo papel que fez em Beijo no asfalto, Bruno Barreto, 1981, o de Amado Ribeiro, o jornalista mais cafajeste da face da Terra; Betty Prado, uma beldade meio maluca que dirige um Ford Escort XR-3 conversível e que curte levar umas bofetadas durante o sexo; um drogado morador de rua que explica para Vina que antigamente a Terra vivia em eterna primavera, mas aí um cometa passou muito perto daqui, o que alterou o eixo de rotação do planeta, disso tudo resultando o término de nosso estado paradisíaco.
Um desses personagens fulgurantes é olhado mais de perto e por um período de tempo mais estendido durante o filme. Trata-se de Eduardo, Dream, Taumaturgo Ferreira, vizinho e amigo de Vina, aspirante a playboy nova-iorquino – mas, enquanto Nova York não chega, ele vai tocando a vida como feirante e tutor da mãe cega e demente (a velhinha vibra com a promessa do filho de que ele está juntando dinheiro para comprar uma televisão em cores para ela; Jorge Luís Borges falava da ironia de Deus, que havia lhe dado, ao mesmo tempo, uma biblioteca com cem mil volumes e a “noite”, a cegueira). Dream é um tipo gente boa, sempre eufórico (“extrovertido ululante”) em suas expressões de afeto, um garotão cheio de ginga, bróder pra lá, bróder pra cá, alguém que imediatamente nos cativa e por quem passamos a torcer, embora saibamos que o tipo não é lá muito confiável e que aquela ginga toda mal oculta o senso que ele tem da própria impotência existencial. Com aquela ideia fixa e delirante de Nova York, Dream se deixa levar pela conversa de um amigo barra pesada, Jacaré, Marcos Palmeira, a quem resolve acompanhar num assalto (Dream acaba arrstandoVina para a empreitada, embora este hesite consideravelmente em participar dela – acaba indo mais para tentar proteger o amigo, de quem conhece as vulnerabilidades todas). As coisas, é lógico, dão muito errado no assalto, Dream é baleado, passa uma noite debaixo de uma ponte em companhia de Vina, sem poder buscar assistência médica, dada a circunstância em que levou o tiro. Os dois acabam tomando o metrô, Dream já à beira da morte, “Vina, fala comigo, diz qualquer besteira”, ele diz, amedrontado, sentindo a vida se esvair de seu estropiado corpo (“Stop, David, I’m afraid, my mind is going, I can feel it”). A interpretação de Taumaturgo é bastante tocante, lamentamos sua morte como lamentamos a morte de Ratso Rizzo, Dustin Hoffman, em Midnight cowboy, John Schlesinger, 1969. (Como lamentamos, igualmente, a “morte” do HAL 9000 em 2001, Stanley Kubrick, 1968.) Ratso e Dream de fato se parecem, ambos adoráveis pequenos vigaristas com ambições semelhantes (Ratso, nova-iorquino, sonha com uma utópica e solar Flórida, Dream, carioca, sonha com uma utópica e feérica Nova York), ambos comovedoramente frágeis. (Lembro-me de ter visto na ocasião do lançamento do filme, 1988, uma entrevista de Taumaturgo para a jornalista Paula Dip. Taumaturgo disse que, para fazer a cena da morte de Dream, concentrou-se nos sentimentos de pesar que então experimentava em relação a um amigo que havia falecido recentemente, que a energia canalizada por essa focagem acabou lhe fazendo muito mal, etc.)
O caso do desaparecimento de Nicinha acaba se resolvendo sem a interferência de Vina – o delegado Freitas descobriu que a menina com cara de inocente vinha traficando drogas e a prendeu em flagrante. Concede que ela veja Vina tocando (com Cazuza) antes de levá-la para o presídio, já sabendo que “Orfeu” e “Eurídice” irão fugir. Sorri quando os dois elementos de fato empreendem a fuga. Freitas, deus do submundo (Hades), por certo sabe mais do que é dado aos comuns mortais saberem, daí que deve ter tido suas razões para agir como agiu. Atitude benevolente e paternal? Desprezo por contraventores tão chinfrins como aqueles? Ou ele simplesmente deu corda para que aqueles dois acabassem, de alguma maneira, se enforcando um pouco mais adiante? Quem sabe? Freitas deve saber. Nós, contudo, meio que boiamos com sua decisão.
Interessante que Vina, Guilherme Fontes, explicitamente protagonize o filme – tenha mais “posse de bola” –, mas que os coadjuvantes constantemente roubem seu protagonismo. Ao menos no quesito peso, “força gravitacional”, empuxo versus arrasto aerodinâmico. Milton Gonçalves particularmente o esmaga quando contracenam, como na aterrorizante cena do banheiro da delegacia, quando o pobre Vina tenta esconder debaixo do pé a ponta de um cigarro de maconha que caiu de sua carteira. Outro aspecto curioso do personagem Vina é sua considerável inibição sexual – no fundo ele não está muito aí para a namorada, perde o rebolado quando Betty Prado pede algo mais “vigoroso”, demostra um considerável conflito edipiano ao procurar, todo perturbado, não olhar para a mãe nos trajes mínimos com que ela se exibe no show “As Mimosas Eróticas”. Há, sem dúvida, um flanco inexplorado aí. Talvez se empreendêssemos a devida exploração acabaríamos encontrando, no fundo dessa caverna, o Nelson Rodrigues trepado num caixote de querosene jacaré pontificando que o brasileiro é um subdesenvolvido – não só como também, um subdesenvolvido sexual.
Acrescentando algo sobre Freitas (sem dúvida o personagem mais consistente e interessante da história), o esmagamento sistemático que impõe ao débil Vina pouco tem a ver como a diferença de tônus basal que há entre ambos. A verdadeira diferença entre um e outro reside no fato de que Freitas, nesse mundinho de insustentáveis levezas do ser do final dos anos 1980, ousa manter os pés firmemente plantados na realidade. Ele sabe que ser é ato, não uma substância estática dada a ser contemplada, que só conhecemos as coisas (e a nós mesmos, na medida do possível) quando não nos negamos ao papel de agentes no mundo (enquanto Vina insiste no erro de Narciso, que é o de congelar-se numa autocontemplação hipnótica e esterilizante). Freitas insiste em buscar desvendar as coisas que de fato ocorreram, pouco importando que o mundo tenha virado as costas à ideia mesma de verdade objetiva. E, de certa forma, tenta trazer o hesitante e assustadiço Vina para sua causa –sim, cooptar aquele garotão que sequer sabe lidar com mulher, “Esse negócio de paixão pra mim é coisa de veado, homem que é homem sente é tesão”, para que ele adira à “vida como ela é” talvez seja uma das ambições didáticas de Freitas. “Antigamente a gente tinha autoridade, garoto”, por fim ele diz, numa fala que pode parecer a mera lamentação de um membro do aparato de segurança pública que perdeu muitas de suas prerrogativas (com a redemocratização, etc.), mas que em sua camada verdadeiramente substancial é a fala cheia de sabedoria de alguém que sabe que o princípio da realidade não vai poder ser negligenciado por muito mais tempo, “Qualquer hora vão precisar da gente de novo”, profetiza ele.
Sobreviver a uma catástrofe – sobreviver a um período de tempo especialmente ruim, por exemplo – pode nos dar uma sensação ilusória de que “o pior já passou”. Lázaro escapou da primeira morte, todos sabemos, mas certamente não escapou da segunda.(Períodos de tempo especialmente bons podem ser igualmente catastróficos; sempre ouvimos falar da sobrevida apática vivenciada por pessoas que tiveram algum grande apogeu logo no início da vida, apogeu esse que passou, aí a pessoa se arrastou por trinta, quarenta anos de um insopitável anticlímax.) Vinícius e Nicinha escaparam daquele aperto específico que vivenciaram, delegado Freitas, etc., assim como, muito provavelmente, acabaram escapando da realidade compressiva e deprimente do Brasil do final dos anos 1980, e assim foram indo, tocando o barco, anos 1990, anos 2000, 2010, 2020. Interessante imaginar o que a vida, passadas mais de três décadas, pode ter feito aos personagens de Um trem para as estrelas. Imagino Vina hoje: cinquenta e tantos anos, radicado em São Paulo já há tempo o bastante para ter incluído em seu vocabulário expressões como o famigerado “ô meu”; divorciado, três filhos, representante comercial (vende produtos para bebês – fraldas, chupetas, mamadeiras, etc.); não toca mais sax; não conseguiu parar com a maconha, apesar de algumas tentativas, o que muito lamenta, dado que sua memória atualmente se assemelha a um buraco negro; fez cirurgia bariátrica quando seu peso passou de 150 kg (bem magro quando jovem, não parecia que um dia Vina viria a ter sérios problemas de obesidade); não se dá muito bem com nenhum filho (um pretende-se youtuber, outro pretende-se designer de jogos de computador, outro é metido com grupos políticos radicais e faz transações nebulosas com criptomoedas). E, claro, imagino Nicinha: cinquenta e tantos anos, sem filhos, tentando sobreviver fazendo consultas astrológicas online; cabelos pintados em casa; teve uma fase meio ninfomaníaca, mas já faz quase cinco anos que não faz sexo (entrou em menopausa antes dos cinquenta e decidiu não fazer reposição hormonal, etc., etc.); duas falências no currículo; um curso de superior de psicologia não concluído (o que não a impede de apresentar-se eventualmente como “coach”). Isso posto, cabe aqui a pergunta: o pior já passou? Pois é, parece que “o pior” nunca passa. E o “pior” de antigamente, olhado com suficiente distanciamento temporal, já não nos parece tão ruim assim. Na verdade parece até bom.
De fato, é meio difícil dizer o que era caracteristicamente ruim em 1988 (a data, claro, é uma figura de linguagem que resume o período). Os fatos objetivos de então não parecem melhores ou piores do que os de qualquer outro tempo, afinal, a realidade sempre é composta por coisas boas e coisas péssimas. A ruindade de 1988 talvez estivesse menos nos fatos observáveis do que numa espécie de má vontade generalizada, infiltrante e debilitante, que contagiou todos os aspectos do real. Uma certeza, compartilhada por quase todo mundo, quanto à prevalência do pior. Uma espécie de niilismo barato, R$ 0,99, usado como moeda corrente, dinheirinho trocado para as pequenas despesas do dia a dia, dinheirinho fiduciário, dinheirinho sem lastro, nulo, dinheirinho de esmola, um monte de notas de baixo valor e um monte de moedas ensebadas (“Pô, qual é?, assaltou alguma igreja?”), Ferris Bueller dando uma notinha de cinco dólares ao hostess do restaurante besta de Chicago, o hostess olhando para a notinha com cara ne nojo, notinha de cinco dólares americanos, notinha de cem trilhões de dólares do Zimbábue, cada um por si, todo mundo na lona. Etc., etc. Talvez não exatamente por acaso existiu em Belo Horizonte, em 1988, uma boate de grande sucesso chamada The Great Brazilian Disaster. Talvez não por acaso a telenovela de maior sucesso em 1988 tenha sido Vale tudo, cuja sinopse pode ser enunciada como “pessoas mais ou menos horríveis fazendo o tempo todo coisas mais ou menos horríveis”. Talvez não por acaso o Bateau Mouche IV tenha naufragado na Baía de Guanabara no réveillon de 1988, num dos maiores tributos à negligência, imprudência e imperícia já vistos nesse país. (O caso Bateau Mouche, para além de sua concretude trágica, sua “tragédia de erros”, suas mortes, etc., revelou ter uma dimensão fortemente simbólica, de fatalidade, de inevitabilidade do pior, etc., simbolismo esse acabou ocupando o imaginário de um país inteiro.) Talvez não por acaso o humor brasileiro teve no período um de seus momentos mais férteis e desabridos (e engraçados) – se tudo vai irremediavelmente mal, talvez só nos reste mesmo cantar aquele tango argentino, “Pediatras peronistas elegem Nenem” (Carlos Saul Menem), ou a marchinha de carnaval “Wilza Carla explode na terça-feira gorda”, ou o grande sucesso de Oswaldo Montenegro “O humor engraçado de Mongol” (Oswaldo Montenegro e seu parceiro Mongol eram um dos mais frequentes alvos das gozações de O planeta diário).
E, sem dúvida, não por acaso o programa de TV de maior sucesso naquela época (estreou em 1989) foi o Documento especial, da Rede Manchete, que explorava o grotesco, o demencial, o extravagante, o horrendo, o “quanto pior, melhor”, programa cuja estética mundo-cão, circo de horrores, tinha razoável afinidade com o conteúdo explorado por Diegues em Um trem para as estrelas. A coincidência não é tão espantosa assim, já que essa propensão ao bizarro e ao monstruoso estava no ar, volatizada e atmosférica (Jean Baudrillard, um dos maiores intérpretes daquele tempo, dizia que por alguma misteriosa razão havíamos perdido nossas pulsões eletivas, nossas constelações de gosto, ficando no lugar apenas nossas repulsões, nossa negatividade, nosso rejeitar violento de tudo). Seria temerário afirmar isso na ocasião (como, aliás, era temerário afirmar qualquer coisa numa época tão insidiosa e escorregadia), mas não deixava de existir nesse culto ao desencanto radical e suas expressões mais tangíveis (o surfe ferroviário era uma delas, tema explorado, aliás, num dos episódios de Documento especial) a busca por um princípio de sanidade, ainda que por vias bem tortas. “Sim, a realidade é horrenda, mas ela é o que é. Pelo menos não estamos sendo enganados por nenhum desses charlatães que vivem dizendo belas e mentirosas palavras. Nunca mais ninguém vai fazer a gente de trouxa.”(O que é uma bobagem, claro. Sempre somos feitos de trouxas, de uma maneira ou de outra.) No quesito usos e costumes, trato entre semelhantes, todo mundo esculhambava todo mundo e isso não rendia processos a ninguém (o que pode soar como música para nossos contemporâneos ouvidos, dado que o ativismo judicial virou uma das pragas dos tempos presentes). Havia uma aspiração ao jogo aberto até mesmo na publicidade comercial, muito irônica (e divertida) no período, “Sim, bróder, é claro que a gente está te enganando, mas bola pra frente, relaxe e goze”. Todo mundo falava o que achava que tinha de falar e o.k., afinal um discurso é um discurso é um discurso, no fundo irredutível a qualquer outro discurso. O apelo (utópico, é claro) à liberdade irrestrita estava na boca até dos bisonhos menudos, que viviam cantando “não se reprima” (ao que acrescentávamos, “mate sua prima, com estricnina”). Tratava-se de liberdade, sem dúvida, ainda que meio capenga (e suspeita). (Livre como um táxi, como dizia o Millôr.) Em suma, havia uma interessante, ainda que arriscada, atitude de largar as rédeas, deixartudo correr pra ver simplesmente aonde a coisa ia dar. “A vida é uma vasta experiência que ainda não atingiu seus objetivos”, como está escrito-pintado num quadro do artista plástico Wesley Duke Lee (Wesley fez uma ponta em Cordélia, Cordélia, Rodolfo Nanni, 1971, no papel de um fotógrafo; seu desempenho é divertidamente péssimo, assim como divertidamente péssimo é o desempenho de Cazuza interpretando Cazuza em Um trem para as estrelas; nada contra não-atores esbanjando canastrice na tela, isso nos lembra o quanto nós mesmos somos canastrões em nossas vidinhas, o quanto parecemos desajeitados quando nos vemos gravados em vídeo, etc.). “Mil novecentos e oitenta e oito” foi uma vasta experiência que não atingiu objetivo algum porque a teleologia, a finalidade última das coisas, talvez não passe de uma ilusão, perniciosa como toda ilusão.
(Ou não.)
O grande mérito daquele tempo talvez tenha sido o de não chamar o pior por outro nome, não o eufemizar. Nem Carlos Diegues, caracterizado por um “humanismo esperançoso” em boa parte de sua obra (a revista Mad, sem dúvida maldosamente, o chamou uma vez de Cacá Piegas), cedeu à tentação – não há qualquer concessão à esperança em Um trem para as estrelas. (Quer dizer, até há. Há saídas apontadas, prevalências, dado que não é a mesma coisa alguém ser “Vina” e alguém ser “delegado Freitas” – quem sabe mais, pode mais –, mas a coisa não chega a se materializar no filme como algo que pode ser chamado de esperança. Simplesmente porque isso não interessava muito na ocasião. Não só como também, nossos traumas relacionados à degeneração de autoridade em autoritarismo eram relativamente recentes, portanto era melhor manter a atitude de suspeita em relação a qualquer tipo humano mais autoral – ou seja, antes o anódino Vina assoprando seu sax do que um sargentão nos berrando “alto lá”.) Voltando à esperança: mesmo os episódios mais alegoricamente esperançosos do filme – a chuva de comida numa favela durante a crucificação de uma suposta “santa”, a decisão da personagem de Tânia Bôscoli de num único dia ir para a cama com todos os homens que conseguisse para gerar um filho independentemente de quem fosse o pai (alegoria de que a vida, apesar de tudo, deve continuar), mesmo esses apelos à esperança têm, nesse filme, um matiz marcadamente irônico, quando não mordaz – afinal, a decisão da bela Tânia é estapafúrdia, para dizer o mínimo, e a chuva de feijão e arroz não foi nenhum milagre, mas um simples descarte de comida estragada sobre uma favela, descarte sugerido, aliás, pelo delegado Freitas logo no início do filme, “deem tudo para os pobres, pelo menos eles morrem de barriga cheia”.
Por não eufemizar o horrendo, Diegues realizou em Um trem para as estrelas talvez seu melhor e mais corajoso filme.
(29/09/2023)